Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, quinta-feira, 10 de agosto de 2006

México: López Obrador, chantagem política e efeito "boomerang"

Autor: Edson Oliveira   |   13:28   1 comentário

Destaque Internacional - Informes de Coyuntura - Año IX - No. 203 - Madrid, 7 de agosto de 2006 - Responsable: Javier González. Tradução: Edson Carlos de Oliveira

A deseperação dos populistas mexicanos e latino-americanos pelo fato do México estar escapando de suas mãos se explica, ainda que não se justifique, entre outras razões porque desmente o "mito" publicitário sobre a irreversibilidade do avanço ezquerdista no continente


1. Depois das disputadas eleições presidenciais mexicanas de 2 de julho pp., cujo vencedor ainda não foi proclamado oficialmente pelo Tribunal Eleitoral do Poder Judicial da Federação (TEPJF), o candidato populista Andrés Manuel López Obrador está tentando ganhar por mal o que não conseguiu, até o momento, ganhar por bem, mediante uma chantagem política sobre as autoridades eleitorais desse país.

O 6 de julho pp., o Instituto Federal Eleitoral (IFE), anunciou que o candidato oficial Felipe Calderón havia obtido 243.394 votos a mais que López Obrador, o que significa uma vantagem de 0,58%. O candidato populista apresentou então ante o TEPJF numerosas denuncias de “fraude” e um pedido de recontagem total dos votos.

2. A López Obrador o assistia e o assiste todo o direito de apelar de acordo com o disposto pelas leis eleitorais, tal como o fez. Não obstante, não contente com isto, o candidato populista inflamou seus seguidores, lançando-os em uma manobra de “resistência civil” que invadiu e instalou “acampamento” nas principais avenidas da Cidad de México, a capital do país, provocando enormes transtornos e tentando dessa maneira dobrar ao Tribunal Eleitoral.

Sem embargo, a chantagem do candidato de esquerda parece estar transformando-se em um "boomerang", porque tanto no plano interno mexicano, quanto no plano internacional, se vão confirmando as suspeitas que muitos haviam manifestado sobre as tendências autoritárias, de inspiração “chavista”, de dita personalidade política, que tentavam esconder-se detrás de uma aparência de simpatia e jovialidade.

3. O TEPJF, em sessão pública realizada em 5 de agosto pp., não cedeu antes a pressão das hostes de esquerda, decidindo que não procedia a recontagem total dos votos solicitado, e determinando a recontagem parcial em 9% das mesas eleitorais cujos resultados podiam suscitar dúvidas. Seis de setembro é o prazo máximo que o alto tribunal tem para decidir, de maneira inapelável, sobre a validez da eleição e designar o novo presidente eleito.

Imediatamente depois de ter sido anunciada a falha do TEPJF, López Obrador, continuando com sua política do “tudo ou nada", atiçou a seus partidários a redobrar a “resistência civil”, o que está criando uma tensão que poderá levar ao México a um perigoso enfrentamento interno. De qualquer maneira, como o efeito que já se faz sentir é um aumento do desprestígio nacional e internacional de López Obrador, que está inclusive comprometendo seu futuro político.

4. A desesperação dos populistas mexicanos e latino-americanos pelo fato de que o México está escapando de suas mãos se explica, ainda que, obviamente, não justifique, entre outras razões pelo fato de que sucessivos triunfos eleitorais esquerdistas na América Latina foram alimentando uma espécie de “mito” publicitário sobre a irreversibilidade de seu avanço em todo o continente.

Sem embargo, o tropeço do candidato “chavista” Ollanta Humala, no Peru, foi um primeiro sinal de alerta de que estava produzindo-se um distanciamento entre o “mito” e a realidade. Agora , um tropeço do candidato das esquerdas no México poderá desmentir mais categoricamente ainda esse mito publicitário sobre a irreversibilidade do avanço populista. A ditos tropeços se somam os sérios casos de corrupção que estão afetando aos Governos Lula, no Brasil, e de Chaves, na Venezuela; e, sem sombra de dúvidas, também a incerteza sobre a sobrevivência do regime comunista cubano.

São Paulo, quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Bispos cubanos, Castro e a “paz” dos paredões

Autor: Edson Oliveira   |   11:44   Seja o primeiro a comentar


A Conferência dos bispos Católicos de Cuba, que agora pressiona as consciências dos fiéis para que rezem pela saúde do Lobo vermelho, é a mesma que jamais se atreveu a pedir publicamente orações pelo rebanho dizimado, pelos milhares de presos políticos agonizantes nos cárceres, pelos condenados a morte e pelos fuzilados nos paredões


Por Armando F. Valladares*
Tradução: Edson Carlos de Oliveira


O 4 de agosto pp., enquanto crescia nos católicos da ilha e do desterro a esperança de ventos de liberdade para a querida Pátria cubana ante o afastamento do poder do sanguinário ditador Castro, depois de quase meio século de perseguições, crimes e destruição praticamente total da sociedade, e de ter aplicado sua diabólica estratégia contra os católicos, enunciada na Universidade de Havana, de “fazer apóstatas, mas não mártires”, um balde de água fria tentava diluir essa esperança.

Se tratava de um comunicado da Conferência dos bispos Católicos de Cuba (COCC), difundido quase simultaneamente pelo Granma Internacional, órgão do Partido Comunista de Cuba (PCC) e pela Agência Católica de Informações (ACI), na qual se pedia encarecidamente “ orações” a “todas” as comunidades católicas da ilha para que Deus “acompanhe em sua enfermidade ao presidente Fidel Castro”, para que “ilumine a quem recebeu provisoriamente as responsabilidades de governo”, e para que “não possa ser perturbado por nenhuma situação externar ou interna” o “desejo de paz e de fraterna convivência entre todos os cubanos".

O Granma Internacional, sem esconder sua complacência, interpretou esta mensagem como sendo um chamado a "orar pela recuperação do presidente Fidel Castro" e como um "alerta" para que "a estabilidade e a harmonia social imperantes em Cuba" não possam ser alteradas por fatos internos ou externos.

A Conferência dos bispos Católicos de Cuba, que agora pressiona as consciências dos fiéis pedindo-lhes que rezem pela saúde do Lobo vermelho, e a mesma que jamais se atreveu a pedir publicamente orações pelo rebanho dizimado, pelos milhares de presos políticos agonizantes nos cárceres, pelos condenados a morte e pelos fuzilados nos paredões.

Segundo testemunhos fidedignos chegados de Cuba, se nota na população uma tensão sem precedentes, e existe nas ruas uma espécie de silêncio pesado e expectante. Há quem diga, parafraseando Andersen, que um grito de “o Lobo está desnudo!” poderia desencadear episódios similares aos da queda do Muro de Berlim ou aos do fim da ditadura do sanguinário Ceaucescu, na România.

É nesta conjuntura que os Pastores se encarregam de alertar para que “fatos internos” não venham a alterar uma “paz” artificial e fraudulenta, que em Cuba não é outra senão a “paz” sepulcral dos paredões. São uma vez mais os Pastores que, ao contrário de sair a defender o rebanho, se oferecem como escudos para proteger ao Lobo.

No dia seguinte do chamado dos bispos cubanos, se fez eco do mesmo nada menos que o Cardeal Primaz das Américas e Arcebispo de Santo Domingo, monsenhor Nicolás López Rodríguez, que junto com o pedido aos dominicanos que rezem "pela saúde" do tirano, qualificou de "inumana" a legítima esperança dos cubanos desterrados que se encontram nas ruas de Miami, de que o deteriorado estado físico de Castro possa trazer uma pronta liberação da ilha (cf. Listín Diario Digital y La Plana Digital, República Dominicana, 4 y 5 de agosto de 2006). O mesmo Cardeal que em agosto de 1998, antes de chegar Castro a República Dominicana, convocou ao povo desse país a dar-lhe uma “feliz e cálida boas-vindas" (cf. A. Valladares, "Castro en República Dominicana: el Pastor abre sus brazos al Lobo...", Diario Las Américas, Miami, 20 de agosto de 1998).

Depois de ter sobrevivido por mais de duas décadas como preso político nos cárceres catristas; de ter fortalecido minha fé católica ao ouvir os gritos de jovens mártires que morreram no paredão gritando “Viva Cristo Rey! ¡Abajo el comunismo!"; de haver resistido, junto com mais companheiros de infortúnio, a pressões eclesiásticas para consentir a uma "reeducação" ideológica e para vestir o uniforme de preso comum; assim como de haver podido quase milagrosamente sair com vida da ilha-cárcere, "esperando contra toda esperança", segundo o conselho do Apostolo São Paulo, me vi na dolorosa obrigação de consciência de escrever numerosos artigos denunciando a colaboração eclesiástica com o comunismo cubano.

Em sua maioria ditos artigos tem sido publicados em generosas páginas do Diario Las Américas, de Miami. Ofereço ditos textos aos leitores interessados, bastando escrever ao e-mail: ArmandoValladares2005 @ yahoo.es (cf., por exemplo, "Fraudulenta 'política religiosa' del dictador Castro", em vésperas da chegada do ditador Castro a Roma; "Sí, Cardenal Ortega, el régimen comunista persiguió y persigue a los católicos cubanos", nas vésperas da chegada de S.S. João Paulo II à Cuba; "El pedido de perdón que no hubo: la colaboración eclesiástica con el comunismo", "El Lobo y los Pastores celebran encuentro 'constructivo y amistoso'", "Cardenal Sodano y Fidel Castro: el Pastor sale en auxilio del Lobo”, "Cardenal Martino, Encuentro Nacional Eclesial Cubano y comunismo cubano", publicados, respectivamente, no Diario Las Américas de 16 de novembro de 1996; 9 de janeiro de 1998; 22 de março de 2000; 11 de maio de 2003; 29 de novembro de 2005 e 7 de março de 2006).

O recente comunicado episcopal que acabo de comentar, mostra a lamentável determinação dos bispos católicos de Cuba de continuar com essa colaboração comuno-católica, ainda no caso de um enfraquecimento temporário do tirano Fidel Castro se torne definitivo. Para as consciências dos Pastores, dito colaboracionismo com o regime comunista, que já dura décadas, constitui um lastro espiritual sem precedentes, que não poderá passar inadvertido ante Deus e ante a História.
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Texto publicado em espanhol no dia 9 de Agosto de 2006 no Diario Las Américas, Miami (FL).
*Armando Valladares, ex preso político cubano, autor do livro "Contra toda esperança", onde narra 22 anos nas prisões castristas, foi embaixador dos Estados Unidos ante a Comissão de Dereitos Humanos da ONU, em Genebra, durante as administrações Reagan e Bush. E-mail: armandovalladares2005 @ yahoo.es

São Paulo, sábado, 5 de agosto de 2006

Zoo

Autor: Edson Oliveira   |   11:38   Seja o primeiro a comentar

O artigo abaixo foi achado na internet, data de 2002, mas o tema é atual e demonstra meu ponto de vista. Gostaria de tê-lo escrito.

Zoo

Diário de Notícias 14.10.2002

A imprensa só pode ser compreendida e interpretada através da aplicação de um teorema fundamental, conhecido como o “Principio do Jardim Zoológico”.

O jornalismo, escrito ou emitido, é composto por dois elementos básicos, o informativo e o editorial. Os dois aspectos são inseparáveis. Ninguém vai a um jardim zoológico para ver moscas, gatos, rãs e caracóis. Um Zôo não é uma quinta e os animais que tem são representativos da fauna nacional. Foram esco-lhidos precisamente por serem alheios a essa fauna. Os seus símbolos são leões e zebras, elefantes, hipopótamos e chipanzés. O interesse do jardim é a apre-sentação de animais de outras realizadas exóticas, originais e inesperadas.

O mesmo se passa nos jornais. Os críticos, articulistas e comentadores da imprensa não são, de forma nenhuma, representativos da opinião corrente. Pelo contrário, foram escolhidos exatamente por serem exóticos, originais e inesperados. É essa a lógica de concepção do naipe de analistas de uma publi-cação. O fato não tem em si mal nenhum. O mal vem do seu esquecimento, que ge-ra um terrível erro, o de identificar o que se lê nos jornais com o que pensa o País. Pode ser que exista uma “opinião pública”, mas se existe nada tem a ver com os jornais.

Os editoriais e comentários da imprensa não são a opinião pública; são a opinião mais privada que existe. É uma opinião que foi construída para ser di-ferente, especial, interessante e, por isso mesmo, muito pouco pública. Tal como no jardim zoológico, ela não pretende representar a nossa realidade, mas trazer-lhe uma forma e colorido que em geral lhe faltam. Este fato é evidente, por exemplo, ao passarmos os olhos pelas páginas de um jornal nacional como este. Os comentários nunca são escritos por cidadãos comuns, representativos da atitude nacional. Se fosse, os cidadãos comuns não as quereriam ler. São antes pessoas diferentes, especiais, interessantes, por esta ou aquela razão. O que motivou a sua escolha foi mesmo essa falta de representatividade.

A maioria dos colunistas é constituída por pessoas notáveis pelas suas especialidades talentos, ideologias ou corporações. Esses são os leões, ze-bras, elefantes, hipopótamos e chipanzés da cultura. Alem disso temos, como nos jardins zoológicos, casos de aves raras, espécimes únicos que não repre-sentam ninguém senão a si mesmos. Esses são, aliás, as estrelas do jardim, os mais famosos e procurados, opinadores nacionais de referência. São muito in-fluentes mas nada representativos da opinião nacional. E, por fim, também há os animais que estão extintos no estado selvagem e apenas sobrevivem no cati-veiro do jardim.

É o caso, em Portugal, do Bloco de Esquerda, por exemplo, que pulula na nossa imprensa mas que depois, quando se vai a votos, se nota que não repre-senta mais ninguém.

Assim se vê que a opinião publicada é muito diferente da opinião pública é verdade que a imprensa influencia os leitores. Há muitos cães que gostavam de ser leões, burros que se julgam zebras e vacas que queriam ser hipopótamos. Tal como a rã da fábula, é impossível inchar até chegar a ser boi. Ou elefan-te. Este teorema tem vantagem de ajudar compreender fatos que geram grandes confusões e irritações. Muitos são os grupos que se indignam por a sua opinião estar ausente da imprensa. Os católicos, por exemplo, representam a esmagadora maioria da população, mas isso é alheio aos jornais e televisões. A grande maioria dos comentadores desconhece a forma cristã de ver o mundo e muitos são-lhe abertamente hostis. Mesmo no campo informativo, a imprensa quase não dá notícias que interessem à Igreja e, quando dá, era melhor estar calada, de tal forma a reportagem manifesta a sua ignorância. No entanto, a Igreja insti-tui a grande maioria dos seus leitores.

Sinto isso bem porque, enquanto cronista, fui colocado na pequena “jaula dos católicos” da imprensa de referência. Logo após a captura, passei uns anos no fosso dos economistas, um espaço cor-de-salmão vasto e populoso umas pagi-nas adiante. Mas, após uns anos, e sem perder a classificação taxonômica, trouxeram-me para este recanto lateral e pacato do jardim. É uma jaula pequena com grades baixas, dado os animais serem herbívoros e pachorrentos e, sobretu-do, serem muito poucos.

Por que razão a nossa imprensa não representa melhor a opinião maioritá-ria? Mas essa irritação resulta apenas da incompreensão do “Princípio do Jar-dim Zoológico”. O rugido dos comentadores não serve para nos representar, mas para nos distrair. Como no Zôo.