Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Batalha de Iwo Jima e o heroísmo católico, detalhes desconhecidos sobre a famosa foto

Autor: Edson Oliveira   |   16:49   14 comentários



Escrevi este artigo depois de pesquisar em fontes norte-americanas, pois não encontrei dados - mesmo irrelevantes - em nenhum site ou blog de língua portuguesa. Talvez até – pode ser uma pura pretensão minha - seja a primeira vez que ela é contada, ao menos na internet, em nosso idioma. Submeto-a para apreciação de nossos leitores.

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A foto famosa ao lado, intitulada Raising the flag on Iwo Jima, registrou o momento em que os marines conquistaram, no dia 23 de fevereiro de 1945, o cume do vulcão Suribachi (foto acima), ponto mais alto da ilha de Iwo Jima. Esta foto foi tirada por Joe Rosenthal na segunda vez em que a bandeira norte-americana foi levantada.

Mas o que não é muito conhecido é lado da bravura profundamente católica que envolveu o primeiro hasteamento da bandeira.

O livro do padre jesuíta Donald Crosby, Battlefield Chaplains: Catholic Priests in World War II, narra os feitos dos padres católicos que participaram da segunda Guerra Mundial. Entre eles, Pe. Crosby conta a história do sacerdote jesuíta Charles F. Suver, com então 38 anos de idade, pertencente ao 5ª Divisão de Fuzileiros Navais. Ele era um dos 19 capelães que ministravam os sacramentos para as três divisões marines que participaram da mais sangrenta batalha no Pacífico.

Localização da ilha vulcânica de Iwo Jima.
Pe. Suver nasceu em Ellensburg, Washington, no ano de 1907. Formou-se na faculdade de Seattle, em 1924, e foi ordenado padre em 1937. Pouco depois do ataque japonês em Pearl Harbor, ele entrou para a marinha como capelão e foi designado para acompanhar os soldados na batalha de Iwo Jima.

Um dia antes do desembarque na ilha, a tensão aumentava entre os soldados que sentiam a morte se aproximar na medida em que o navio ficava mais perto de seu destino. Eles sabiam que teriam que enfrentar, em breve, mais de 23.000 japoneses liderados por um dos mais capazes generais do Japão. A coragem dos marines seria testada ao máximo.

Alguns fuzileiros foram, então, após o jantar, até a cabine do Pe. Charles Suver para conversar sobre a invasão que ocorreria ao amanhecer. Em certo momento, um jovem oficial disse que se ele tivesse uma bandeira americana, a levaria até o alto do monte e talvez alguém a hasteasse lá em cima.

O tenente Haynes, desafiando o oficial, imediatamente respondeu: "Certo, você leva a bandeira que eu a coloco lá em cima". Com uma santa ousadia, Pe. Suver acrescentou: "Vocês colocam ela lá em cima e eu celebro uma missa embaixo dela!"

Às 5:30 da manhã do dia seguinte, 19 de fevereiro, ainda a bordo do navio (LST 684), o Pe. Suver celebrou uma missa para os fuzileiros navais. Logo após, alguns marines fizeram várias perguntas a ele, especialmente sobre coragem. Então, o sacerdote jesuíta respondeu: "Um homem corajoso cumpre o seu dever, apesar do medo atroz. Muitos homens têm medo, por muitas razões diferentes, mas poucos são corajosos".

Padre Suver desembarcou naquele dia às 9:40 da manhã, na mais perigosa de todas as praias, a Green Beach. Sob o fogo de metralhadoras que começaram de repente a disparar, ele foi forçando a se atirar no chão. Mais tarde soube que tinha estado atrás das linhas japonesas e no território controlado por cinco metralhadoras.

Ele se arrastou imediatamente para o próximo trincheira. Apesar destas situações enervantes, padre Suver não abandonou a ideia de rezar uma missa no Monte Suribachi assim que a bandeira americana fosse hasteada lá. Sua vida esteve em risco diversas vezes durante a batalha, mas ele conseguiu sempre manter o domínio de si mesmo e continuou a exercer sua função.

Cinco dias de combates sangrentos se passaram. Pe. Suver estava trabalhando em um posto de socorro com seu ajudante Jim Fisk (durante a batalha foram designados assistentes para transportar os equipamentos dos capelães) quando percebeu que os marines cautelosamente escalavam o Monte Suribachi. Embora a situação fosse extremamente perigosa, ele decidiu que este era o momento. Convocou seu ajudante, pegou sua mala com o material necessário para celebrar a Missa e correu em direção do vulcão.

Enquanto subiam, viu a bandeira tremulando no cume do monte. Uma onda de entusiasmo tomou conta de todos os marines, alguns até choraram de alegria quando viram a bandeira americana balançando ao sabor do vento. "Todos nós experimentamos uma emoção que nenhum de nós nunca vai ser capaz de descrever", disse o padre Suver.

Infelizmente, o tenente Haynes, que tinha se prontificado a hastear a bandeira no alto do monte, foi baleado nas costas momentos antes e ficou paralisado até o fim de sua vida

Foto: Primeira missa em Iwo Jima, celebrada pelo padre jesuíta Charles Suver no
cume do monte Suribachi. Autor: Louis Burmeister.
Pe. Suver chegou ao topo e, com a aprovação do comandante, preparou-se para celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Dois tambores de gás vazio com uma placa colocada em cima eram tudo o que podiam encontrar para servir de altar. Mais ou menos vinte soldados vieram assistir à Missa com suas armas em riste, pois a resistência japonesa ainda estava muito acirrada.

Para proteger o sacerdote e os utensílios sagrados, dois marines segurava um manto contra o vento feroz. Os fuzileiros navais protegiam o sacerdote não só do vento, mas também de um possível ataque que poderia ser eminente.

As cavernas próximas ainda abrigavam soldados japoneses e estavam tão perto que o padre Suver podia ouvir os japoneses falando sobre aquela desconhecida cerimônia religiosa. Providencialmente, os japoneses não atacaram e Pe. Suver conseguiu realizar a histórica primeira missa da ilha de Iwo Jima. 

Joe Rosenthal, judeu convertido ao
catolicismo.
Jim Fisk, o ajudante do Pe. Suver, publicou posteriormente um artigo afirmando que a missa foi celebrada durante o hasteamento da primeira bandeira, cerca das 10:30 da manhã. O segundo levantamento da bandeira - fotografada por Joe Rosenthal, vide foto no início deste artigo - ocorreu entre 12:00 e 12:30.

Sobre o momento em que a missa foi celebrada, há uma versão do padre jesuíta Jerry Chapdelaine, que foi amigo do Pe. Suver e que conviveu com ele na escola jesuíta Bellarmine, em Tacoma, Washington. Segundo ele, o padre Suver lhe disse pessoalmente que a missa foi rezada antes do hasteamento da bandeira e não depois. Pe. Chapdelaine conta que o padre Suver disse aos seus homens: "Eu vou rezar missa para vocês e, em seguida, vocês levantam a bandeira".

"Ele era um cara durão", comenta o Pe Chapdelaine sobre o Pe. Suver, "era fisicamente forte e tinha muita coragem. Mas ele era um homem muito gentil, também". Pe. Suver morreu de câncer em 1993 aos 86 anos. Era domingo de Páscoa. "Ele queria morrer na Sexta-Feira Santa - segundo ele próprio me disse", contou o padre Chapdelaine, que celebrou seu funeral na Igreja St. Joseph, em Seattle.

Sobre o papel dos capelães jesuítas, o fotógrafo Joe Rosenthal - a quem, antes de desembarcar, o tenente Haynes se gabou de que ia levantar uma bandeira no cume do Suribachi e que o padre Suver prometeu celebrar uma missa debaixo dela - comenta que  que tinha boas recordações dos sacerdotes corajosos que serviram como capelão durante a Segunda Guerra Mundial. "A maioria dos capelães foram bons (...). Os jesuítas foram admirados por todos os Marines. (...) Se eles encontravam um fuzileiro naval morrendo, eles iam até lá [correndo o risco de serem atingidos], como uma coisa natural. Eles eram tão heroicos quanto os marines".

Pe. Suver e os seus homens tinham cumprido a sua promessa, apesar do grande perigo que encontraram. Muita batalha ainda havia pela frente em Iwo Jima, mas o levantamento da bandeira e a missa encorajaram os marines para manter a luta em uma combinação sublime de bravura patriótica e fervor religioso.

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Fontes consultadas:

Something Else Sublime Happened on Mount Suribachi, Blog The America Needs Fatima, http://americaneedsfatima.blogspot.com/2008/11/something-else-sublime-happened-on.html, acessado em 22/9/2011.

Fr. Charles F. Suver, S.J. "The Jesuit of Iwo Jima", Blog Good Jesuit, Bad Jesuit, http://goodjesuitbadjesuit.blogspot.com/2011/01/fr-charles-f-suver-sj-jesuit-of-iwo.html, acessado em 22/9/2011.

The Forgotten Mass on Iwo Jima, site The Remnant Newspaper, http://www.remnantnewspaper.com/Archives/archive-2006-0831-iwo-jima.htm, acessado em 22/9/2011.

The Mass on Mount Suribachi, site The American Catholic, http://the-american-catholic.com/2009/03/30/the-mass-on-mount-suribachi/, acessado em 22/9/2011.

14 comentários:

Este texto está excelente! Está se revelando um ótimo escritor.
O blog "Sou Conservador sim, e daí?" cumpre perfeitamente o papel de imprensa católica. Lembro-me de Louis Veuillot nestas horas.

Estão vangloriando um padre que queria rezar um missa num campo de guerra, sobre os cadáveres de pais de família? E estão chamando esse padre de "herói"?"
Bem que fala: já se matou mais em nome de Deus do que qualquer outra coisa...

Sim, anônimo. Chamamos a este de herói, pois se não fossem pessoas, como ele, que arriscaram a própria vida, pessoas, como você, estariam hoje sendo obrigados a ter um quadro de Hitler na parede e dizer "Heil Hitler" sempre que se despedir no telefone. Ou então estariam cortando cana para sustentar alguma ditadura comunista.

E você, anônimo, pode nos dizer qual era o grau de importância que o comunismo e o nazismo - antes, durante ou após a Segunda Guerra - davam aos milhões de "cadáveres de pais de família" esmagados pelos coturnos alemães e russos?

"Bem que fala: já se matou mais em nome de Deus do que qualquer outra coisa..."

Esqueceu-se de dizer que no século XX se matou mais para combater a Deus do que em nome de Deus.

Ótimo post!
Diferente e muito bacana. Precisamos de mais histórias como essas.
Parabéns.

Gostaria de saber porque o então papa Pio, em vez de apoiar o nazismo como fez(fato que foi reconhecido pela igreja catolica,levando até mesmo,o papa João Paulo a pedir dsculpas ao mundo)não repudiou a tal regime monstruoso expondo a sua hipocrisia e desejo de refino de uma raça com o custo de milhões de vidas na Alemanha?A coragem deste e de outros capelães durante a guerra deveria ser demonstrada pelo repudio a guerra e não pelo apoio a elas.Afinal de que lado estava Deus nesta guerra,ja que todos oravam pedindo a vitoria sobre seus inimigos?

Anônimo, se o fato foi reconhecido pela Igreja, então peço que cite a fonte da informação, do contrário, é só um argumento vazio baseado mais em sentimentos do que em acontecimentos.

"A coragem deste e de outros capelães durante a guerra deveria ser demonstrada pelo repudio a guerra e não pelo apoio a elas".

Você foi bem esperto em ter se mantido no anonimato, pois ninguém tem a coragem de escrever o que você acabou de escrever.

Você acha realmente que apenas o repúdio à guerra bastaria para parar os soldados nazistas? Não percebe que seu argumento é entreguista a favor do nazismo?

"Afinal de que lado estava Deus nesta guerra,ja que todos oravam pedindo a vitoria sobre seus inimigos?"

Você por acaso chega a levantar a hipótese de que Deus estaria do lado nazista? Que estranho.

Amigo, por favor!
Mude o nome do site para: "Conservador com muito orgulho, mas humilde!"
Abraços!

Edson, deixe este assunto de Nazismo de lado, isso é encheção de lingüiça.
Não entre no jogo do gato e do rato.
Quando acusam os Jesuítas ou afirmam que alguém é nazista, fazem com a intenção de colocar o sujeito na defensiva sendo que ele é que está com a verdade ou não é o que estão falando que ele é.
Não entre nunca nesse jogo, porque se entrar, para sair dele é mais dificíl.
Grande abraço!

Belíssimo o texto escolhido. Num país onde ser patriota e religioso está fora de moda. O texto sobre Iwo Jima é espetacular.

Se não fossem os soldados que lutaram, dos muitos que ficaram mutilados, física ou mentalmente hoje nós seríamos escravos.
Antes de criticarem os soldados, lembrem-se dos NOSSOS compatriotas também que morreram em guerra na Europa, peço um minuto de reflexão e respeito.

Excelente texto!!! Brasil desconhece a guerra, graças a Deus,
por isso é muito bom relembrar os heróis anônimos - soldados desconhecidos que por todos nós morreram no decorrer da 2a guerra mundial; repito-morreram por todos nós!!!