Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
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São Paulo, quinta-feira, 21 de junho de 2012

Os inseparáveis público e privado

Autor: Helio Dias Viana   |   12:23   1 comentário

Em nossos dias em que o liberalismo levado às suas últimas consequências desfechou – como não poderia deixar de ser – na mais completa libertinagem, um dos argumentos utilizados para se chegar a tal paroxismo foi o de que a vida privada dos indivíduos nada tem que ver com a sua vida pública. Como se aos homens fosse possível “pintar e bordar” individualmente e depois serem bons chefes de famílias ou de empresas, ou administradores públicos exemplares!

Pensar assim seria ignorar a natureza humana, a qual constitui um só todo inseparável, e, portanto, o que se diz aqui dos chefes ou dos administradores vale para qualquer outra atividade ou profissão. Ninguém consegue, ainda que o tente de todos os modos, observar uma conduta externa que não seja uma projeção de sua vida privada.

Um líder, por exemplo, que queira permanecer fiel aos seus princípios e não andar ao sabor da moda e das ideias extravagantes, só conseguirá fazê-lo se na sua vida privada ele for correto. Vale aqui lembrar a sentença de Paul Claudel, citada por Plinio Corrêa de Oliveira em seu célebre ensaio Revolução e Contra-Revolução: “Cumpre viver como se pensa, sob pena de mais cedo ou mais tarde acabar por pensar como se viveu”.


À vista disso, é toda a organização social que se ressente, pois quando os que a compõem não agem segundo esses princípios, ela marcha para a destruição. Quem pode negar, por exemplo, que uma empresa cujo diretor seja chefe de uma família bem constituída, tenha maior possibilidade de êxito do que a de outro que não viva nessas condições? Simplesmente porque o primeiro terá mais condições psicológicas e apoio colateral para levar a bom termo as suas atividades do que o segundo. Situação que depois se transmitirá aos filhos. Nesse sentido, não se pode negar que a indissolubilidade matrimonial contribui eficazmente para o progresso econômico da sociedade e das nações.

O que dizer então dos chefes de Estado, de quem a nação inteira tem o direito de esperar o bom exemplo e aos quais incumbe o dever de dá-lo? O que sobraria hoje de instituições altamente respeitáveis, de cujo seio eram outrora excluídos os que não tivessem boa conduta? Lucraram tais instituições ao abolirem essas normas? Lucraram sequer os seus membros, que se viam assim protegidos? Lucrou a sociedade? 

Não passa, portanto, de uma falácia pensar que seja possível separar a conduta pública da privada sem provocar grandes tragédias. Que o digam os dias em que vivemos!

São Paulo, quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O harem do Sultão, o pobre imbecil e nossa geração

Autor: Unknown   |   18:26   6 comentários

Ivan Rafael de Oliveira

A
s noticias que se lêem do presente bem podem indicar a realidade em que vivemos, mas muitos fatos do passado nos fazem entender melhor algumas conseqüências dessa realidade. É por isso que convido o leitor a conhecer um fato pouco conhecido da história.

Não vamos voltar muito, apenas até o inicio do século XX, mais propriamente em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial.

Quando algumas complicações de guerra levaram os imperadores da Áustria-Hungria, Carlos de Habsburgo e sua esposa Zita, a fazerem visitas a seus aliados, tiveram de passar também pela Turquia. Ao chegar em Constantinopla, atual Istambul, foram recebidos pelo Sultão Otomano Mehmed V.

Qual não foi a decepção de Carlos e Zita ao se depararem com um monarca que nada correspondia com as fábulas arabescas. Um homem de pernas tortas, cujos olhos piscavam timidamente enquanto os lábios sorriam bobamente, sempre amparado por dois lacaios que o guiavam. O grão-senhor da “Sublime Porta” era um simples imbecil, que apenas tartamudeava. Sua história desafiava toda ficção.

Após essa surpresa, o guia lhes explicou o caso em poucas frases.

Abdul Hamid II foi o antecessor e irmão mais velho de Mehmed V. Também conhecido como o Sultão Vermelho por ter mandado exterminar cerca de 400 mil armênios, nos chamados massacres hamidianos. Ele não era popular devido a sua crueldade e se via cercado de inimigos que tramavam a sua deposição. Sua desconfiança voltava-se particularmente contra seu inofensivo irmão Reshid, futuro Mehmed, em que Abdul via seu provável sucessor. Uma vez que nenhum mal podia ser feito a este que era ainda um menino, tornava-se necessário destruí-lo por algum meio oculto. Matar? Prender? Torturar? Não ficaria bem. Conhecedor de todas as praticas bestiais, Abdul rapidamente descobriu a melhor solução para inutilizar o rapaz.

Reshid foi trancado numa prisão. Mas não uma prisão comum: ele ficou preso no próprio harem real. Durante nove anos o rapaz ficou a se “distrair” da única maneira possível em tal lugar. Quando finalmente o soltaram de seu orgíaco cativeiro, ele era esse pobre imbecil.

Ao concluir a história, o próprio guia afirmou que uma cela de prisão a pão e água teria feito menos mal.

***

Mas o que tem esse fato com qualquer coisa do presente? Alguém pode perguntar.

A Resposta é simples. O fato narrado é real, o desregramento moral de Mehmed produziu nele a imbecilidade. E o que houve com esse rei em larga escala, pode estar acontecendo com a sociedade atual em marcha mais lenta.

Pelo acompanhamento diário das notícias não nos faltam exemplos para ver o quanto a imoralidade, a pornografia e a promiscuidade vão se tornando cada dia mais corrente e aberto na sociedade. As próprias crianças vão sendo acostumadas a essas coisas cada vez mais cedo. Basta ver como são os programas do governo que tratam do assunto a pretexto da prevenção da AIDS, o modo como essas coisas são tratadas por despudorados professores escolares, a apresentação das propagandas comerciais em todos os ramos da mídia, e até mesmo o modo como muitas vezes os próprios pais ensinam aos filhos.

Concomitantemente a capacidade de concentração das atuais gerações vai minguando – que o confirmem os professores!

Haveria realmente alguma ligação da imoralidade com a “burrificação” da sociedade?

Coincidência ou não, as duas estão caminhando. E a sociedade vai tomando o rumo do pobre imbecil, Mehmed V.

São Paulo, terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Anarquistas e comunistas: a autogestão integral

Autor: Unknown   |   22:43   2 comentários

Anarquista (an, em grego privado de, e arché, governo) é um indivíduo que luta pelo fim de toda autoridade, mesmo quanto legítima, e para isso alguns se utilizam dos crimes praticados pelas ditaduras comunistas para suprimir toda e qualquer superioridade. Exemplo:

O erro desses anarquistas é supor que o marxismo não seja também tão tolo quanto eles anarquista.

Sim, é verdade, houve açougues humanos ditaduras comunistas onde a autoridade foi utilizada de forma completamente errada (Nuremberg para os comunistas, já!), mas os próprios marxistas consideravam esse período ditatorial como uma transição necessária para impor a igualdade. Quando a liberdade não mais gerasse desigualdades, então eles acabariam com uma das últimas desigualdades, o próprio Estado, pois a simples existência dele supõe que uns mandam e outros obedecem. Aí teríamos, dizem os comunistas, uma sociedade autogestionária.

Essa tal sociedade autogestionária "transportará toda a máquina do Estado para onde, desde então, o corresponde ter seu posto: o museu de antiguidades".(Cfr. Frederich ENGELS, Origem da Família - A propriedade e o Estado, pp. 217)

Um porta-voz dos grupos anarquista congregados na CNT - Confederação Nacional do Trabalho, fundado na Espanha por anarco-sindicalistas -, diz : "Por qual tipo de sociedade lutamos? Por uma sociedade sem classes, igualitária, onde necessáriamente os meios de produção estarão socializados (não estatizados), autogestionados pelos próprios trabalhadores (...). A isto é o que chamamos comunismo libertário: uma sociedade autogestionada federal e igualitária".

Na mesma declaração, acrescenta mais adiante: "Não pensamos que haja muitas diferenças entre a concepção da sociedade final a que aspiramos socialistas, comunistas e libertários. Haveriam diferenças nos meios e nas etapas precedentes" (Cfr. Sergio FANJUL, Modelos de transición ao socialismo, pp. 131-132 e 136).
 

Gorbachev, em seu livro “Perestroika – Novas idéias para o meu país e o mundo” (Ed. Best Seller, São Paulo, 1987, p. 35), escreve: “A finalidade desta reforma é garantir .... a transição de um sistema de direção excessivamente centralizado e dependente de ordens superiores para um sistema democrático baseado na combinação de centralismo democrático e autogestão”.

A autogestão era “o objetivo supremo do Estado soviético”, segundo estabelecia a própria Constituição da ex-URSS em seu Preâmbulo.

A diferença entre um mundo anarquista e um autogestionário é apenas o rótulo. Suas rivalidades dizem respeito somente aos métodos para atingir o mesmo fim.

___________

São Paulo, sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Platão no sindicado

Autor: Unknown   |   14:39   Seja o primeiro a comentar

Tem-se falado muito em liberdade, aproveito a ocasião para divulgar um artigo elucidativo sobre esse tema, escrito pelo professor Plinio Corrêa de Oliveira e publicado no jornal Folha de São Paulo.





O medíocre possui alguma noção de muitas coisas. Noção vaga e flutuante, bem entendido, que não lhe custe adquirir nem conservar. Ele imagina atingir o píncaro de si mesmo quando encontra, para designar cada noção, alguma palavra vistosa ou que, pelo menos, não faça parte do mais corriqueiro linguajar.

Entre nós, uma das palavras preferidas pelo medíocre é "radical". Ele sente no ar que tachar um desafeto de radical é ser nocivo a este. Ser "radical" provoca uma repulsa meticulosa e exacerbada. Então é bom ser anti-radical, porque isto atrai simpatias. Eis assim nosso medíocre a quixotear anti-radicalismo por onde quer que passe. Mas ele murchará e mudará de assunto assim que alguém lhe objete que um anti-radicalismo tão chamejante não passa de mera forma de radicalismo. Pois para debater essa objeção – aliás tão obviamente verdadeira – o medíocre precisaria conhecer exatamente e a fundo o que quer dizer "radical". Ora, seu espírito flanador aborrece os conceitos precisos e profundos.

Análogo é o uso que o medíocre faz da palavra "liberdade". Ela lhe lembra, ao mesmo tempo, a surrada trilogia "liberdade, igualdade, fraternidade" (que ele já ouviu elogiar mil vezes), da qual gosta. Liberdade recorda, ademais, a vistosa estátua do porto de Nova York, que ele tem visto em fotografias e em anúncios. E também um vasto e populoso bairro da cidade de São Paulo. Em seu tempo de moço fumava cigarros "Liberty". E, de modo geral, está-lhe no espírito a idéia de que liberdade é algo que dá a cada qual a possibilidade de fazer absolutamente tudo quanto ache deleitável.

Quando criança, esta palavra lhe entrou no espírito. Seu professor primário retinha os alunos faltosos, depois das aulas, a copiarem, incontáveis vezes, frases como esta: "O menino bom é obediente e aplicado". Quando se esgotava o tempo, o mestre exclamava contente: "Liberdade, liberdade!" E todos os diabretes disparavam para a rua, ávidos de extravagâncias e tropelias. Este era o núcleo ideológico central que lhe ficava acerca da palavra liberdade. O cigarro, o monumento, o bairro, homenageavam de um modo ou de outro essa coisa tão gostosa que é a liberdade. A trilogia lhe parece conter o mesmo pensamento com que a palavra florescia, sorridente, nos lábios do professor.

A superficialidade do medíocre, ele mesmo não imagina que possa ter efeitos entretanto profundos. Se alguém lho dissesse, ele riria, incrédulo.

Enfrentar um medíocre seria tarefa fácil para qualquer um. Menos fácil é enfrentar os medíocres aos centos ou aos milhares. Mas essa é, hoje em dia, a contingência inevitável de quem quer que se entregue à publicidade. Pois os medíocres enchem a terra.

Não creio que eles sejam dos mais numerosos a ler estas linhas, que entretanto tratam deles. Compreendo que elas não lhes sejam confortáveis. Mas um lance de olhos num tópico ou noutro será suficiente para enfurecer vários. Pois todo homem – até o medíocre – é vivo e perspicaz quando se fala dele.

Entretanto, não hesito em afirmar até ante os medíocres, o maléfico, o profundamente maléfico de sua frivolidade.

Persuadido de que a liberdade é um bem, o medíocre conclui que quanto mais liberdade, melhor. Liberdade absoluta é, para ele, felicidade total. Eleitor, o medíocre dará seu voto ao candidato que lhe prometa liberdade sem limites. Candidato, o medíocre atrai o apoio de todos os seus congêneres. De onde transforma sua campanha eleitoral numa prelibação da liberdade absoluta, total e sem freios. Naturalmente, isto acarreta, em todas as legendas, a presença e a vitória de uma porcentagem de medíocres, maior em umas, menor em outras. Daí um impulso difuso das atividades legislativas e governamentais rumo ao extravagante, ao descabelado, ao desabrido. Pois se tudo é permitido... E da esfera estatal, esse impulso se estende a todos os outros setores da sociedade.

Quadro já muito conhecido da realidade atual? – Considere o leitor esse texto:

* * *

"Quando um povo é devorado pela sede de liberdade, acontece-lhe ter à testa líderes serviçais, que lha proporcionarão tanta quanto ele queira, a ponto de se embriagar com ela.

"Se os governantes resistem então aos desejos sempre mais exigentes de seus súditos, passam a ser qualificados de tiranos.

"Ocorre também que quem se mostra disciplinado em relação aos superiores é definido como homem sem caráter, servil.

"E que o pai, alarmado, acabe por tratar seus filhos como iguais, não sendo mais respeitado por eles.
"O mestre não ousa mais reprovar os alunos, e estes se riem dele.

"Os jovens reivindicarão os mesmo direitos, a mesma consideração atribuída aos velhos, e estes últimos, a fim de não parecerem por demais severos, acabam dando razão aos jovens.

"Nesse clima de liberdade, e em nome desta, não há consideração nem respeito por ninguém.
"Em meio a tanta licença, nasce e se desenvolve uma má planta: a tirania".

Quadro da realidade presente?

Sem dúvida, o quadro descreve bem os dias borrascosos em que vivemos. E chama a atenção, com sutileza e precisão geniais, para o proveito que deste tufão de demo-mediocridade tiram os semeadores de tirania. ou seja, hoje, os comunistas.

Mas o quadro data... de muito antes: do século IV antes de Cristo. Seu autor é Platão, que assim denuncia os radicais do liberalismo como sendo, na democracia, os verdadeiros pais da ditadura. O trecho é de "A República".

Isto não é só do século IV antes de Cristo, nem só de hoje. É de sempre. Está na própria natureza das coisas
* * *

E tenho mais algo a acrescentar: não transcrevi o grande filósofo diretamente. Limitei-me a verificar que essas palavras são realmente suas. Simplesmente foram elas retiradas, à maneira de condensação, do texto originário autêntico (cfr. "The Dialogues of Platon", Encyclopaedia Britannica, Inc., Chicago – London – Toronto, 1952, p. 412).

Esta condensação, um amigo encontrou-a, emoldurada e suspensa, numa parede da sede... de um sindicato. Eis como o grande e solene Platão penetrou assim num sindicato. E não de ricos empregadores. Nem de cultos professores. Mas de... choferes de táxi de Roma!

Este é o fruto, num povo, não da demagogia, mas da cultura e da tradição. Insisto na palavra "tradição".

São Paulo, quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Guerra Psicológica e Revolução Cultural

Autor: Unknown   |   10:14   Seja o primeiro a comentar

Fonte: A Cavalaria Não Morre - Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira,
recolhidos por Leo Daniele.
Resumo: A grande anarquia, como uma caveira de foice na mão, parece rir sinistramente aos homens, da soleira da porta de saída do século XX(*), onde os aguarda


A guerra psicológica pode ser sumariamente definida como um conjunto de operações psicológicas destinadas a atuar sobre o ânimo do adversário, de sorte a levá-lo à capitulação antes mesmo que qualquer operação o tenha derrotado pela força.

Ela assegura ao atacante as vantagens da vitória, sem os esforços, os custos e os riscos da guerra.
Não se pense, aliás, que a guerra psicológica exclui inteiramente o emprego da força. Pois a intimidação do adversário faz parte de tal guerra, e certas operações de força ("ivasões de terras", sabotagens, atentados, sequestros, motins, etc) podem intimidar e levar à capitulação a classe social que se queira derrubar.

A guerra psicológica visa a psique toda do homem, isto é, "trabalha-o" nas várias potências de sua alma, e em todas as fibras de sua mentalidade.

Como uma modalidade de guerra psicológica revolucionária, a partir da rebelião estudantil da Sorbonne, me maio de 1968, numerosos autores socialistas e marxistas em geral passaram a reconhecer a necessidade de uma forma de revolução prévia às transformações políticas e socio-econômicas, que operasse na vida cotidiana, nos costumes, nas mentalidades, nos modos de ser, de sentir e de viver. É a chamada "revolução cultural".

O referido conceito de "revolução cultural" abarca, com impressionante analogia, o mesmo campo já designado por "Revolução e Contra-Revolução" (ArtPress, 4ª Edição, São Paulo), em 1959, como próprio da Revolução nas tendências.

A chave da Contra-Revolução tendencial não consite tanto em entrar nas tendências más, e dirigir contra elas uma guerrilha, quanto em conhecer as tendências boas, estimulá-las e favorecê-las.

A Revolução cultural é uma verdadeira guerra de conquista - psicológica, sim, mas total - visando o homem todo, e todos os homens de todos os países.

Revolução tendencial, a nova guerra

A Contra-Revolução não é nem pode ser um movimento nas nuvens, que combata fantasmas.

Ela tem de ser a Contra-Revolução do século XX(*), feita...

... contra a Revolução como hoje em concreto ela existe e, pois, contra as paixões revolucionárias como hoje crepitam;

... contra as idéias revolucionárias como hoje se formulam, os ambientes revolucionários como hoje se apresentam, a arte e a cultura revolucionárias como hoje são;

... contra as correntes e os homens que, em qualquer nível, são atualmente os fautores mais ativos da Revolução.

[É preciso] antes de tudo, acentuar a preponderante importância que (...) cabe a Revolução nas tendências.

Essas tendências desordenadas, que por sua própria natureza lutam pode realizar-se, já não se conformando com toda uma ordem de coisas que lhes é contrária, começam por modificar as mentalidades, os modos de ser, as expressões artísticas e os costumes, sem desde logo tocar de modo direto - habitualmente, pelo menos - nas idéias.

Dessas camadas profundas, a crise passa para o terreno ideológico. Com efeito - como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra "Le Démon du Midi" - "cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu". (Op. cit., Librairie Plon, Paris, 1914, vol. II., p. 375)

Assim, inspiradas pelo desregramento das tendências profundas, doutrinas novas eclodem.

Essa transformação das idéias estende-se, por sua vez, ao terreno dos fatos, onde passa a operar, por meios cruentos ou incruentos, a transformação das instituições, das leis e dos costumes.

A grande anarquia, como uma caveira de foice na mão, parece rir sinistramente aos homens, da soleira da porta de saída do século XX, onde os aguarda

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(*) O texto foi escrito no século passado.

São Paulo, quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Rumo a um "paraíso" revolucionário utópico, radicalmente igualitário e libertário: a autogestão integral

Autor: Unknown   |   12:26   2 comentários

Resumo: Socialistas, comunistas e anarquistas compartilham uma origem doutrinal comum. Permanecem unidos diferenciando-se apenas nos métodos de ação - na aspiração de uma mesma meta final, radicalmente igualitária e libertária; e por isso, no Ocidente, é possível ver, incontáveis vezes, esses grupos formando frentes de ação comum, e até coalizões governamentais para desenvolver determinadas etapas do processo revolucionário.

Extraído do livro:
"España, Anestesiada sin percibirlo, amordazada sin quererlo, extraviada sin saberlo
- La obra del PSOE Comisión de Estudios de TFP-COVADONGA, 1988"

Os antecedentes ideológicos do socialismo se remotam, para não ir muito longe, à Revolução Francesa. Na medida em que esta foi se radicalizando e se aproximando de seu auge, surgiram em seu seio setores extremistas. A Revolução adquiriu asssim, durante o Terror, efêmeros, mas nítidos, aspectos comunistas. Os revolucionários radicais interpertaram o lema liberdade, igualdade, fraternidade até suas últimas consequências. Ou seja, não era só necessário eliminar aos reis e à nobreza, senão também os proprietários rurais, reis nos campos, nas empresas e no comércio, e aos pais de famílias, reis do lar. O mais característico representante destes setores foi Babeuf. [1]

Naturalmente, a prematura revolução dentro da Revolução do extremista Babeuf fracassou, mas a bandeira revolucionária por ele levantada seria de um ou outro modo retomada ao longo do século XIX pelas chamadas correntes do socialismo utópico [2]. Estas atuaram nos tumultos revolucionários que sacudiram a Europa em 1848, e especialmente na sublevação da Comuna de París de 1871.

Se foi definindo assim o ideal utópico revolucionário, segundo o qual na sociedade devem ser abolidas a propriedade privada e as diferenças entre as classes sociais. Se eliminará então toda forma de superioridade entre os homens, desaparecendo inclusive a distinção entre governantes e governados. Neste novo estado de coisas a liberdade será absoluta, porque serão suprimidas a lei moral e as leis coercitivas que regem a sociedade civil. Se estabelecerá o amor livre. Desaparecerão por inúteis a polícia, o Governo, o Estado e, por suposto, a Religião e a Igreja. O homem se libertará, por fim, da Lei Natural impresa pelo Criador no mais íntimo de sua alma. O impossível se tornará realizável: a anarquia, no sentido etimológico da palavra (an, em grego privado de, e arché, governo) não resultará no caos. Daí as descrições românticas que muitos autores fazem do modo da vida tribal, ao pintá-la com as aparências mais belas possíveis.

Friederich Engels descreveu com estas palavras a sociedade tribal dos índios iroqueses: "Admirável constituição dessas pessoas, em toda a sua juventude e com toda sua simplicidade! Sem soldados (polícia, nobreza, reis, governadores, prefeitos, juízes) sem prisioneiros nem processos, tudo anda com regularidade. Todas as querelas e todos os conflitos são resolvidos pela coletividade a quem concernem, a pessoa ou a tribo, ou as diversas pessoas entre elas. (...) Não faz falta nosso estorvo de aparato administrativo, tão vasto e tão complicado. (...) economia doméstica é comum para um série de famílias e é comunista; o solo é propriedade da tribo e, só a princípio, tem as casas pequenas hortas. (...) Todos são iguais e livres".

Com base nesta descrição, explica em seguita a etapa final da revolução comunista: "Assim, pois, o Estado não existe desde toda a eternidade. Houve sociedades que se passaram sem ele, que não tiveram nenhuma noção de Estado e da autoridade do Estado. Em certo grau de desenvolvimento econômico, necessariamente unido a separação da sociedade em classes, esta divisão fez do Estado um necessidade. Agora nos aproximamos, a passo de gigante, a um grau de desenvolvimento da produção em que, não só deixou de ser uma necessidade a existência destas classes, senão que chegou a ser um obstáculo positivo para a produção. As classes desapareceram tão fatalmente como surguiram. (Com o desaparecimento das classes, desaparecerá inevitavelmente o Estado). A sociedade que organizará de novo a produção sob as bases de uma associação livre e igualitária de produtores, transportará toda a máquina do Estado para onde, desde então, o corresponde ter seu posto: o museu de antiguidades".(Cfr. Frederich ENGELS, Origem da Família - A propriedade e o Estado, pp. 122, 216-217). [3]

Com a entrada em cena de Carl Marx, auxiliado por Engels, as correntes revolucionárias encontraram nas teorias de ambos uma sistematização filosófica e um método de análises para iniciar um processo que levasse a utopia à prática. Foi o chamado socialismo científico ou comunismo. Nasceu daí o movimento internacional para realizar a revolução socialista. De seu seio saíram os líderes do partido bolchevique russo que, com Lenin na diantera, fizeram a revolução que transformaria a Rússia, a partir de 1917, na Meca do socialismo mundial.

Em 1919 este movimento marxista teve sua primeira grande divisão. Os que aderiram a tese da tomada de poder por violência, proposta por Lenin, se aglutinaram na Internacional Comunista, fundada pouco antes pelo lider russo. Aqueles que consideravam que no ocidente não seria possível tomar o poder e derrubar a ordem capitalista vigente com a rapidez e a violência da revolução bolchevique, passaram a se chamar socialistas. Se definia assim a Internacional Socialista, distinta da Internacional Comunista dirigida por Lenin. Anos mais tarde, o dirigente soviétido Trotsky daria origem a uma terceira facção dentro do marxismo: foi a corrente anarco-bolchevique, que acusava a Stalin de caminhar muito lentamente para a realização da meta comunista, isto é, a utopia revolucionária. Meta que também é o objetivo das correntes anarquistas propriamente ditas, ou libertárias.

Socialistas, comunistas e anarquistas compartilham uma origem doutrinal comum. Permanecem unidos - diferenciando-se apenas nos métodos de ação - na aspiração de uma mesma meta final, radicalmente igualitária e libertária; e por isso no Ocidente é possível ver, incontáveis vezes, esses grupos formando frentes de ação comum, e até coalizões governamentais para desenvolver determinadas etapas do processo revolucionário.

Sobre o fato histórico desta unidade nas metas, ver, por exemplo, o que diz um porta-voz dos grupos anarquista congregados na CNT - Confederação Nacional do Trabalho, fundado na Espanha por anarco-sindicalistas - : "Por qual tipo de sociedade lutamos? Por uma sociedade sem classes, igualitária, onde necessáriamente os meios de produção estarão socializados (não estatizados), autogestionados pelos próprios trabalhadores (...). A isto é o que chamamos comunismo libertário: uma sociedade autogestionada federal e igualitária".

Na mesma declaração, acrescenta mais adiante: "Não pensamos que haja muitas diferenças entre a concepção da sociedade final a que aspiramos socialistas, comunistas e libertários. Haveriam diferenças nos meios e nas etapas precedentes" (Cfr. Sergio FANJUL, Modelos de transición ao socialismo, pp. 131-132 e 136).

Artigo relacionado: Conexão entre Liberalismo e Igualitarismo na utopia marxista

Fontes:
[1] Cfr. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, Revolução e Contra-Revolução, pp. 44-41; ver também sobre a relação entre a Revolução Francesa, o movimento de Babeuf e a revolução comunista, Manifesto de fundação da III Internacional in Günter BARTSCH, Kommunismus, p. 80; Friederuch ENGELS, Do socialimo utópico ao comunismo científico, pp. 31-32)

[2] Sobre as relações entre as doutrinas inspiradoras da Revolução Francesa, o movimento de Babeuf e o socialismo utópico do século XIX, ver Julius BRAUNTHAL, Geschichte der internationale, t. I, pp. 45 a 51; Elie HALEVY, Histoire du socialisme européen, pp. 80 a 92. Ademais há um estudo sobre as relações entre a Revolução Francesa e o movimento socialista em Carl MARX e Friederich Engels, Utopisme & communauté de l´avenir, especialmente nas pp. 6 a 8 e 149-150. A esse proprósito, afirma Engels: "O socialismo científico alemão não esqueceu jamais que se edificou sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier e d´Owen"(op. cit., p. 8) Há ainda mais dados esclarecedores sobre as relações entre a Revolução Francesa e o movimento socialista no livro de Filipo Buonarrotti (1761-1837), companheiro de Babeuf na Conspiração dos iguais, de 1796, Histoire de la Conpiration pour l´Égalité, dite de Babeuf , Bruselas, 1828, apud LEHNING, De Buonarrotti a Bakounine, pp. 45-98, e HALEVY, Histoire du socialisme européen, p. 81

[3] Esta tradução, feita pela Academia de Ciências da URSS, retirou ou omitiu em certos trechos o texto de Engels por razões políticas. Entre parenteses temos posto as frases omitidas que figuram em outras traduções.

São Paulo, segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Negação do pecado no liberalismo e no socialismo

Autor: Unknown   |   13:45   Seja o primeiro a comentar



Dentre os múltiplos aspectos da Revolução, é importante ressaltar que ela induz seus filhos a subestimarem ou negarem as noções de bem e mal, de pecado original e de Redenção.
A Revolução é, como vimos, filha do pecado. Mas, se ela o reconhecesse, desmascarar-se-ia e se voltaria contra sua própria causa.
Explica-se, assim, porque a Revolução tende, não só a passar sob silêncio a raiz de pecado da qual brotou, mas a negar a própria noção do pecado. Negação radical, que inclui tanto a culpa original quanto a atual, e se efetua principalmente:
• Por sistemas filosóficos ou jurídicos que negam a validade e a existência de qualquer Lei moral ou dão a esta os fundamentos vãos e ridículos do laicismo.
• Pelos mil processos de propaganda que criam nas multidões um estado de alma em que, sem se afirmar diretamente que a moral não existe, se faz abstração dela, e toda a veneração devida à virtude é tributada a ídolos como o ouro, o trabalho, a eficiência, o êxito, a segurança, a saúde, a beleza física, a força muscular, o gozo dos sentidos, etc.
É a própria noção de pecado, a distinção mesma entre o bem e o mal, que a Revolução vai destruindo no homem contemporâneo. E, ipso facto, vai ela negando a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sem o pecado, se torna incompreensível e perde qualquer relação lógica com a História e a vida.

EXEMPLIFICAÇÃO HISTÓRICA: NEGAÇÃO DO PECADO NO LIBERALISMO E NO SOCIALISMO


A. A conceição imaculada do indivíduo

Na fase liberal e individualista, ela ensinou que o homem é dotado de uma razão infalível, de uma vontade forte e de paixões sem desregramentos. Daí uma concepção da ordem humana, em que o indivíduo, reputado um ente perfeito, era tudo, e o Estado nada, ou quase nada, um mal necessário... provisoriamente necessário, talvez. Foi o período em que se pensava que a causa única de todos os erros e crimes era a ignorância. Abrir escolas era fechar prisões. O dogma básico destas ilusões foi a conceição imaculada do indivíduo.
A grande arma do liberal, para se defender contra as possíveis prepotências do Estado, e para impedir a formação de camarilhas que lhe tirassem a direção da coisa pública, eram as liberdades políticas e o sufrágio universal.

B. A conceição imaculada das massas e do Estado

Já no século passado, o desacerto desta concepção se tornara patente, pelo menos em parte. Mas a Revolução não recuou. Em vez de reconhecer seu erro, ela o substituiu por outro. Foi a conceição imaculada das massas e do Estado. Os indivíduos são propensos ao egoísmo e podem errar. Mas as massas acertam sempre, e jamais se deixam levar pelas paixões. Seu impecável meio de ação é o Estado. Seu infalível meio de expressão, o sufrágio universal, do qual decorrem os parlamentos impregnados de pensamento socialista, ou a vontade forte de um ditador carismático, que guia sempre as massas para a realização da vontade delas.

A REDENÇÃO PELA CIÊNCIA E PELA TÉCNICA: A UTOPIA REVOLUCIONÁRIA

De qualquer maneira, depositando toda a sua confiança no indivíduo considerado isoladamente, nas massas, ou no Estado, é no homem que a Revolução confia. Auto-suficiente pela ciência e pela técnica, pode ele resolver todos os seus problemas, eliminar a dor, a pobreza, a ignorância, a insegurança, enfim tudo aquilo a que chamamos efeito do pecado original ou atual.
Um mundo em cujo seio as pátrias unificadas numa República Universal não sejam senão denominações geográficas, um mundo sem desigualdades sociais nem econômicas, dirigido pela ciência e pela técnica, pela propaganda e pela psicologia, para realizar, sem o sobrenatural, a felicidade definitiva do homem: eis a utopia para a qual a Revolução nos vai encaminhando.
Nesse mundo, a Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo nada tem a fazer. Pois o homem terá superado o mal pela ciência e terá transformado a terra em um “céu” tecnicamente delicioso. E pelo prolongamento indefinido da vida esperará vencer um dia a morte.

São Paulo, quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Conexão entre Liberalismo e Igualitarismo na utopia marxista

Autor: Unknown   |   14:45   4 comentários

Em um universo no qual Deus criou desiguais todos os seres, inclusive e principalmente os homens, a injustiça é a imposição de uma ordem de coisas contrária a que Deus, por altíssimas razões, fez desigual. (1) Assim, a justiça está na desigualdade. (2)

Entretanto, Deus criou as desigualdades, não aterradoras e monstruosas, mas proporcionadas à natureza, ao bem-estar e ao progresso de cada ser, e adequadas à ordenação geral do universo. E tal é a desigualdade cristã. (3) Desigualdade harmônica, convém insistir.

Análogas considerações se poderiam fazer acerca da liberdade no universo e na sociedade.

No ocidente surgiu uma sociedade cujos fundamentos foram baseados nessa desigualdade e liberdade harmônicas: a Civilização Cristã.

Na Encíclica Immortale Dei, Leão XIII descreveu nestes termos a Cristandade medieval: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda a expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer”. (4)

Mas, nessa sociedade surgiu uma crise, não digo uma crise diretamente nas idéias, mas uma crise nas tendências. Ela aos poucos foi tendendo para um estado de coisas diferente – propositadamente não digo ordem de coisas. Essa crise tendencial não demorou em passar para o campo ideológico. E deste para os fatos. Daí surgiu as grandes revoluções – Pseudo-Reforma, Revolução Francesa, Comunismo e Sorbonne (5) – que impulsionaram e impulsionam o ocidente para este estado de coisas fundamentalmente contrárias à ordem existente na Cristandade medieval.

Essas grandes revoluções que marcaram as páginas da História são apenas degraus de uma única Revolução. (6)

Na raiz desta tendência revolucionária estão principalmente duas paixões desregradas: o orgulho e a sensualidade. Estes se exprimem em dois valores metafísicos: A igualdade absoluta e a liberdade completa. (7)

A tese igualitária exprimiu-se na Declaração dos Direitos do Homem - magna carta da Revolução Francesa e da era histórica por esta inaugurada – em toda a sua nudez: ”Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”. É claro que este princípio é suscetível de uma boa interpretação. Fundamentalmente, isto é, considerados em sua natureza, os homens realmente são iguais. É apenas pelos acidentes que são desiguais. Por outro lado, sendo dotados de uma alma espiritual, e portanto de inteligência e vontade, são eles fundamentalmente livres.

Os limites dessa liberdade estão apenas na lei natural e divina e no poder das diversas autoridades espirituais e temporais às quais os homens devem sujeitar-se. (8)

O orgulho leva o homem a rejeitar qualquer superioridade existente em outrem, e gera nele um apetite de preeminência e de mando que facilmente chega ao paroxismo. Pois o paroxismo é o ponto final para o qual tendem todas as desordens.

Em seu estado paroxístico, o orgulho assume coloridos metafísicos: já não se contenta em sacudir em concreto esta ou aquela superioridade, esta ou aquela estrutura hierárquica, mas deseja a abolição de toda e qualquer superioridade, em qualquer campo em que exista.

A igualdade onímoda e completa se lhe afigura então a única situação suportável e, por isso mesmo, a suprema regra da justiça. Assim, o orgulho acaba por engendrar uma moral própria. E no âmago dessa moral orgulhosa está um princípio metafísico: a ordem do ser postula a igualdade, e tudo quanto é desigual é ontologicamente mau. (9)

A igualdade absoluta é, para o que chamaríamos de orgulhoso integral , o valor supremo ao qual tudo tem de se conformar.

O liberalismo, na sua fórmula mais radical, é uma mentalidade que diz que todo homem é livre para fazer o que bem entende de sua vida, não aceita freios nem limites e se revolta contra toda autoridade e toda lei. Chegando até a lutar pela supressão do Estado.

O escritor socialista francês Laurent Joffrin assinala satisfeito: “Certas correntes do neoliberalismo se situam nas antípodas desta ressurreição da ordem moral, pregando um liberalismo integral que proíbe a coletividade de intrometer-se em qualquer das preferências pessoais dos cidadãos por muito contrárias que possam parecer à moral corrente. O movimento libertário, uma das facções mais ativas do neoliberalismo, fala por exemplo em nome dos direitos do indivíduo para que se permita a venda livre de narcóticos. (...)

“O esquerdismo se dissolveu na crise. Hoje em dia, é o liberalismo o que tem seus extremistas, (...) os anarco-capitalistas. (...) O partido libertário, principal organização desta nebulosa anarco-capitalista, aumenta cada ano sua influência. (...)Os libertários já não querem o Estado, (...) querem suprimir as leis e os regulamentos. (...) Os libertários pedem, assim mesmo, a supressão pura e simples da justiça, da polícia e do exército. Os queixantes recorreram a juízes particulares, (...) os cidadãos à milícia privada para lutar contra os crimes”. (10)

Sobre este mesmo tema, Laurent Joffrin enumera com bibliografia fundamental: Henri Arvon, Les libertariens américains, PUF, Paris, 1983; David Friedman, The Machinery of Freedom, Harper na Row, New York, 1973; Pierre Lemieux, Du libéralisme à l´anarcho-capitalisme, PUF, Paris, 1983; Robert Nozick, Anarchy, State and Utopia, Basic Books, New York, 1974. (11)

A primeira vista, a ditadura do proletariado cujo fim é a instauração da igualdade social, pareceria o contrário do que pretende o liberalismo. Pois, como os homens podem ser livres debaixo de uma ditadura férrea?

Deixo a resposta com o professor Plínio Corrêa de Oliveira:

É bem verdade que uma ordem de coisas igualitárias suporia o dirigismo, pois a liberdade produz naturalmente a desigualdade. (...) Para eles [os comunistas], o dirigismo total inerente à ditadura do proletariado deve estabelecer de uma vez por todas a igualdade entre os homens. Isto alcançado, o poder político deverá desaparecer, cedendo lugar à ordem de coisas inteiramente anárquica (no sentido etimológico da palavra), na qual a plena liberdade já não engendrará desigualdades. Para os comunistas, não há senão uma incompatibilidade transitória entre a igualdade e a liberdade. Sob a ditadura do proletariado, sacrifica-se provisoriamente a liberdade para instaurar a igualdade total. Esta operação, entretanto, prepara a era anárquica em que a plena igualdade e a inteira liberdade conviverão. De sorte que em seu espírito e em sua meta o dirigismo comunista é ultraliberal. Além disso, em pleno regime capitalista, o liberalismo prepara o terreno para o comunismo no que diz respeito à família e aos bons costumes. À medida que o liberalismo moral vai abrindo campo ao divórcio, ao adultério, à revolta dos filhos e dos empregados domésticos, dissolve-se, com efeito, o lar. E com isto as mentalidades se vão habituando cada vez mais a uma ordem de coisas em que não existe família. Em outros termos, vão caminhando para o amor livre, inerente ao comunismo”. (12)

Em outro livro, Plínio Corrêa de Oliveira resume o assunto:

a efervescência das paixões desregradas, se desperta de um lado o ódio a qualquer freio e qualquer lei, de outro lado provoca o ódio contra qualquer desigualdade. Tal efervescência conduz assim à concepção utópica do ‘anarquismo’ marxista, segundo a qual uma humanidade evoluída, vivendo numa sociedade sem classes nem governo, poderia gozar da ordem perfeita e da mais inteira liberdade, sem que desta se originasse qualquer desigualdade. Como se vê, o ideal simultaneamente mais liberal e mais igualitário que se possa imaginar.

“Com efeito, a utopia anárquica do marxismo consiste em um estado de coisas em que a personalidade humana teria alcançado um alto grau de progresso, de tal maneira que lhe seria possível desenvolver-se livremente numa sociedade sem Estado nem governo.

“Nessa sociedade - que, apesar de não ter governo, viveria em plena ordem - a produção econômica estaria organizada e muito desenvolvida, e a distinção entre trabalho intelectual e manual estaria superada. Um processo seletivo ainda não determinado levaria à direção da economia os mais capazes, sem que daí decorresse a formação de classes”. (13)

Assim fica descrito a conexão que existe entre o liberalismo e o igualitarismo nas concepções utópicas do comunismo. Duas faces de uma mesma moeda.




(1) cfr. Mt. 25, 14-30; 1 Cor. 12, 28 a 31; S. Tomás, "Summa contra gentiles", Livro III, Cap. LXXVII

(2) "A justiça está na desigualdade cristã", Plínio Corrêa de Oliveira, "Jornal da Tarde", 9 de junho de 1979

(3) Idem. Op. Cit.

(4) Encíclica “Immortale Dei”, de 1º-XI-1885, Bonne Presse, Paris, vol. II, p. 39

(5) O vínculo entre estas revoluções está descrito no livro “Revolução e Contra-Revolução, Plínio Corrêa de Oliveira, ArtPress, 4ª Edição, São Paulo

(6) Idem. Op. Cit.

(7) Revolução e Contra-Revolução, Plínio Corrêa de Oliveira, ArtPress, 4ª Edição, São Paulo, p. 62

(8)Auto-Retrato Filosófico, Plínio Corrêa de Oliveira, Revista “Catolicismo” (http://www.catolicismo.com.br/), outubro de 1996, N° 550

(9) Idem. Op. Cit.

(10) La Gauche en voie de disparition – Comment changer sans trahir?, pp. 44, 52-53

(11) Idem. Op.Cit. pp. 44, 53-54

(12) Baldeação ideológica inadvertida e diálogo, Vera Cruz, 3ª Edição, São Paulo, p. 11

(13) Revolução e Contra-Revolução, ArtPress, 4ª Edição, São Paulo, pp. 68-69

São Paulo, sábado, 1 de julho de 2006

Neoliberalismo ou neo-socialismo?

Autor: Unknown   |   19:03   1 comentário

Pedro Luiz de Carvalho
Publicado na Revista Catolicismo(*)
Os problemas econômicos que assolam nosso País provêm da aplicação de princípios do liberalismo econômico? Ou está-se qualificando de neoliberal uma política baseada, de fato, em princípios socialistas?

O Santo Padre Pio XI condenou energicamente o socialismo, em todas as suas versões Em artigo publicado em “O Estado de São Paulo” de 20-10-99, sob o significativo título de Marighella, o tristemente afamado Frei Betto, com sua costumeira linguagem demagógica, lança a culpa de todos os nossos males “na invasão hodierna do FMI, na qual o garrote é substituído por retaliações, a rendição por acordos, as baionetas pelo fluxo de capitais, os saques por juros e amortizações, os chefes de armadas por ministros da Fazenda subservientes à metrópole”. Tudo em meio a um canto de louvor à memória de Marighella, colocado num altar ao lado de Luther King, Ché Guevara, Luiz Carlos Prestes e Francisco Julião...

Por outro lado, D. Cláudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, em artigo também publicado naquele diário paulista, afirma que “a globalização econômica, de perfil neoliberal selvagem, produziu um altíssimo e intolerável índice de desemprego”.

Os “falsos canalhas”

Por seu lado, o conhecido economista e ex-Senador Roberto Campos, em artigo publicado na revista “Veja”, edição de 3-10-99, sob o título Os Falsos Canalhas, demonstra aquilo que nós, não economistas, vislumbrávamos há já bastante tempo: “tornou-se um modismo recente incriminar pela estagnação do desenvolvimento brasileiro dois falsos canalhas: o neoliberalismo e a globalização. Só que esses dois canalhas quase não existem no Brasil”. E prossegue o articulista: “Nenhum dos institutos especializados em análises comparativas internacionais de graus de liberdade econômica deixa de classificar o Brasil como impenitentemente dirigista”. Assim, o Economic Freedom of the World, publicado conjuntamente por 11 Institutos de pesquisa a partir de 1996, ao avaliar o nível de liberdade econômica de 124 países, segundo 24 critérios, situa o Brasil em “um desprestigioso 93.º lugar, entre Marrocos e Gabão”. E “nossas políticas econômicas são tidas por menos liberais que as de países ex-comunistas, como a República Checa, Hungria e Polônia.”

“Isso é fácil de entender. Não pode ser exemplo de neoliberalismo nossa ‘república de alvarás’, que tem moeda inconversível, controles cambiais, complicadíssima regulamentação trabalhista, tributação punitiva que asfixia o setor privado, uma Constituição intervencionista que até recentemente sancionava monopólios estatais, e expandiu de catorze para quarenta os instrumentos de intervenção econômica”.

E acrescenta o articulista: “O Brasil está também longe de ser um campeão da globalização”. Assim, a participação do comércio exterior no PIB “é de apenas 15%, inferior à média latino-americana e largamente superada na Europa e nos países emergentes da Ásia”.

Argumenta Roberto Campos: “Neoliberalismo e globalização não explicam, portanto, nossa pobreza. São falsos canalhas. Os verdadeiros canalhas são outros”.

Dentre os “outros canalhas”, apontados pelo conhecido economista, destacam-se: “A previdência pública compulsória, que é um sistema de solidariedade invertida, sendo ao mesmo tempo: antidemocrática (porque obriga o cidadão a entregar sua poupança a um administrador público); anti-social (pois a contribuição dos pobres financia aposentadorias precoces especiais em favor de classes politicamente mobilizadas); e antidesenvolvimentista (porque não é fonte de poupança capitalizada para a alavancagem do desenvolvimento)”.

Denuncia ainda o ex-Senador “um sistema fiscal punitivo e voraz que, entre impostos e déficits, absorve 40% do PIB, sem contrapartida aceitável de serviços”, e “déficits fiscais que criam um ciclo vicioso: já fugiram os capitais externos – voláteis – e os poupadores nacionais exigem juros elevados. Estes deprimem a economia privada e as receitas fiscais. Esse círculo vicioso é ‘made in Brazil’. Não foi gerado pelo neoliberalismo nem pela globalização”.
* * *

Marighella: idealista, defensor da dignidade e da justiça?

“Há quem prefira silenciá-lo para não se sentir questionado pelo que ele significa de firmeza de convicções e, sobretudo, idealismo centrado no direito de todos os brasileiros à dignidade e à justiça”, escreve Frei Betto.

Deveríamos então sentir-nos questionados por quem propôs como objetivo de sua vida transformar nossa Pátria, mediante atuação terrorista, num país comunista, ateu, igualitário e anticristão, como a infeliz Cuba de Fidel Castro, do “Paredón” e da miséria? Tal proposta representa um escárnio à inteligência de qualquer um, pois essas desgraças são conhecidas de todos!

* * *

Neoliberalismo ou Neo-Socialismo?

É bem evidente que não é nas gloriosas páginas de Catolicismo que o leitor encontrará uma defesa da globalização destruidora das autênticas diferenças culturais das nações, e mesmo das regiões, nivelando tudo por baixo e tendendo a estabelecer uma sociedade mundialista igualitária, que evoca a pavorosa imagem do Leviatan.

Tampouco consideramos o capitalismo e o liberalismo econômico nosso modelo ideal de sistema e de doutrina econômicos. Embora seja certo que o capitalismo, em seus princípios fundamentais de defesa da propriedade privada e da livre iniciativa, está de acordo com a doutrina social católica defendida pelos Papas, devendo ser combatido em seus abusos.

Qualquer leitor habitual de Catolicismo conhece nossa posição de defesa dos valores básicos da Civilização Cristã, à luz dos princípios sempiternos da doutrina tradicional da Igreja Católica. E, de modo mais especial, já tomou conhecimento da defesa que nossa revista, ao longo de seus quase 50 anos de existência, tem feito de uma concepção orgânica da sociedade civil e de suas instituições políticas, sociais e econômicas. Em outros termos, tais instituições devem funcionar de modo análogo ao de um organismo vivo (*).

Costumes campestres tradicionais indicam resquicios de sociedade orgânica ainda existentes hoje, como o cortejo de vacas ornamentadas com flores durante festejos populares na Alta Baviera (Alemanha) Na terminologia do Papa Pio XII, essa sociedade orgânica é denominada verdadeiro povo, que se opõe à massa, isto é, a um aglomerado amorfo e revolucionário de indivíduos.

Acontece, porém, que, para tentar salvar a honra do sanguinário e antinatural regime comunista – se é que a palavra honra possa ser aplicada a um regime que timbra em violar princípios da ética natural e da moral católica –, as esquerdas vêm profetizando o fracasso do capitalismo.
O que não se pode admitir é que essa mesma esquerda – responsável de ter lançado o País à beira da desgraça a que foram submetidos os países do Leste europeu, e que, no presente, subjuga a China, o Vietnã, o Cambodge e Cuba – venha agora nos querer impor “goela abaixo”, a idéia de que estaríamos sendo conduzidos à ruína pelo liberalismo econômico. Este, ao menos, não se constitui – como o socialismo em suas diversas modalidades – num regime antinatural em sua essência, em seus fundamentos mesmos, como repetidamente foi lembrado pelo Magistério tradicional da Igreja.

A esse propósito, é bastante significativo o seguinte tópico da Quadragésimo Anno, de Pio XI:
“O socialismo, quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’, se é verdadeiro socialismo, mesmo depois de se aproximar da verdade e da justiça nos pontos sobreditos, não pode conciliar-se com a doutrina católica, pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã .... Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Papa Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, Vozes, Petrópolis, pp. 43-44).

Na verdade é a aplicação de princípios socialistas que está empurrando o País por um caminho que o Brasil cristão e autêntico abomina, rumo este rejeitado por todo brasileiro de bom senso!
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