Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, quarta-feira, 21 de junho de 2006

Tradição Família e Propriedade, naturalmente!

Autor: Edson Oliveira   |   11:47   Seja o primeiro a comentar

Em 3 de novembro de 1993, o jornal do ex-partido comunista da Itália L'Unità, em artigo assinado por Stefano Dimichele, destaca declarações da Princesa Elvina Pallavicini, nas quais esta afirmou que, para a sociedade atual, "a única solução é o retorno aos valores verdadeiros". Ao que o jornalista perguntou: "E quais seriam estes, Princesa?", apresentando em seguida a resposta dada por ela: "Tradição Família e Propriedade, naturalmente".

Tradição: É a própria vida da família, na riqueza de seu ambiente, transmitida na continuidade, não só biológica, mas também moral, das gerações. É assim que uma geração não nasce, da outra, não armada para as reivindicações e as lutas contra os mais velhos, mas preparada para mútua compreensão. A continuidade assegura a paz e o entendimento entre o dia de ontem e o de hoje. E o dia de hoje pode olhar para o de amanhã, sem medo de ser massacrado. De onde vem a falta de tradição? Isto ocorre quando a vida de família é defeituosa. Por exemplo, quando esquece ou rejeita toda e qualquer tradição. Conheço famílias tradicionalmente antitradicionais, onde, de bisavô a bisneto, todos falam contra a tradição. Nestas famílias o mais das vezes, todos brigam entre si porque não se entendem.

Família: Célula mater da sociedade. Quanta razão temos para querer e admirar esta palavra! Os casais que se constituem com a benção de Deus, para se quererem, se entre-ajudarem e se perpetuarem na prole; as alegrias e dores que se partilham, o ambiente doméstico que se vai formando e caracterizando pela mútua compreensão e pela marca das vicissitudes; as crianças que vão recebendo os valores desse ambiente em suas almas moldáveis, e os vão tomando como preciosos ideais de vida; a família que ao cabo das gerações se abre em ramos numerosos, que o afeto, a lembrança do passado, as esperanças de futuro mantém bem juntos; os mais velhos que vão caminhando lentamente para a eternidade, alegres por deixarem nesta terra uma obra querida por Deus, abençoada por Ele e destinada ao serviço d'Ele: como tudo isso é belo!

Propriedade: Para Leão XIII, a propriedade forma, com a liberdade e o trabalho, um todo harmônico e indissociável. De sorte que nega simultaneamente estes três valores, quem nega um só deles. E afirma implicitamente os três, quem afirma um.

De fato, todo ser vivo – desde a mais modesta célula até um pássaro ou um leão – tem necessidades e é dotado de aptidões naturalmente destinadas à satisfação dessas necessidades. Assim, o pássaro ou o leão têm fome, e, por isto, o seu instinto lhes faz conhecer e apetecer o alimento apropriado. E o seu corpo tem os meios necessários para se apoderar desse alimento e ingerí-lo. Há, pois, uma correlação natural entre as necessidades e as aptidões de cada ser vivo.
Este princípio universal aplica-se também ao homem. E daí decorrem, para cada homem, os três direitos de ser livre, de trabalhar e de se tornar proprietário.

Com efeito, para satisfazer suas necessidades, tem o homem uma alma inteligente e dotada de vontade, para ver e querer aquilo de que precisa. Seu corpo é, para ele, fonte de múltiplas necessidades, e também instrumento para fazer o que for preciso com fim de as atender. Desta situação, decorre, para o homem, ter, simultaneamente:

1. O direito à liberdade de agir segundo sua reta razão para atingir o seu fim;

2. O direito de exercer um trabalho como meio de atender suas necessidades;

3. O direito de propriedade.

Sim, o direito de propriedade. Não pretendo, neste breve artigo, expor todas as origens legítimas da propriedade. Vejamos simplesmente como ela nasce da liberdade e do trabalho.

Porque o homem é dotado de uma liberdade natural, ele não é escravo, mas dono de si mesmo.
Porque o homem é dono de si mesmo, é dono de suas aptidões, e do trabalho mediante o qual exercita suas aptidões. E, porque o homem é dono de seu trabalho, é dono do fruto de seu trabalho. Isto é, o homem é proprietário de seu salário. A propriedade nasce, pois, da liberdade e do trabalho.

Vejamos agora como a propriedade do salário gera a propriedade de toda a sorte de bens móveis e imóveis. Porque o homem é dono de seu trabalho e de seu salário, pode trabalhar mais ou menos, e economizar mais ou menos. Trabalhando e economizando muito, poderá formar um "pé de meia" para ficar despreocupado quanto ao dia de amanhã. Ou para adquirir instrumentos de trabalho com que possa montar uma empresa ou para comprar um imóvel que alugue a terceiros. Ou para reunir um pecúlio com que se associe a um negócio. A propriedade – a expressão, se não me engano é de Leão XIII – é trabalho condensado e acumulado.

Assim, da liberdade e do trabalho de cada qual, nasce a propriedade.

Como remate, respondo apenas a algumas possíveis objeções.

1 – Não é injusto que uns se tornem proprietários, enquanto outros, por doença, infortúnio ou preguiça, não conseguem para si tal resultado?
Seria o mesmo que perguntar se não é injusto haver gente que goze saúde, passeie ou viaje, enquanto outros, por doença, infortúnio ou preguiça, não podem fazer o mesmo. Aos que estão em situação de inferioridade, ajuda-se. Porém não se corta o curso normal das coisas por causa de situações anormais, culposas ou não.

2 – Mas a propriedade não se presta a abusos?
Sim. Há que coibí-los. Mas nem por isto é o caso de a perseguir e mutilar. Também em matéria de liberdade e de trabalho há abusos possíveis. Todos concordam em os coibir. Ninguém concordaria por isto em mutilar ou perseguir a liberdade ou o trabalho.

3 – Se a liberdade, o trabalho e a propriedade são tão conexos, porque optar em seu lema pelo vocábulo "propriedade"?
O que é, hoje em dia, mais carente de defesa, no plano doutrinário? A liberdade e o trabalho, que todos glorificam "una voce"? Não. Mas a propriedade, que os demagogos e os tolos – uns e outros no fastígio, em nosso século – com todas as forças atacam.

Sim, defendemos a propriedade, e nela e com ela, implicitamente, o trabalho e a liberdade.

TRADIÇÃO, FAMÍLIA, PROPRIEDADE. Ideais que nunca morrem!


Fontes:
"Folha de S. Paulo", 11 de setembro de 1968, Dona Cesarina, uma inimiga da TFP
"Folha de S. Paulo", 2 de outubro de 1968, Liberdade, trabalho ou propriedade?
"Nobreza e Elites Tradionais Análogas", Plínio Corrêa de Oliveira, Ed Civilização, 1993

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