Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Bispos cubanos, Castro e a “paz” dos paredões

Autor: Edson Oliveira   |   11:44   Seja o primeiro a comentar


A Conferência dos bispos Católicos de Cuba, que agora pressiona as consciências dos fiéis para que rezem pela saúde do Lobo vermelho, é a mesma que jamais se atreveu a pedir publicamente orações pelo rebanho dizimado, pelos milhares de presos políticos agonizantes nos cárceres, pelos condenados a morte e pelos fuzilados nos paredões


Por Armando F. Valladares*
Tradução: Edson Carlos de Oliveira


O 4 de agosto pp., enquanto crescia nos católicos da ilha e do desterro a esperança de ventos de liberdade para a querida Pátria cubana ante o afastamento do poder do sanguinário ditador Castro, depois de quase meio século de perseguições, crimes e destruição praticamente total da sociedade, e de ter aplicado sua diabólica estratégia contra os católicos, enunciada na Universidade de Havana, de “fazer apóstatas, mas não mártires”, um balde de água fria tentava diluir essa esperança.

Se tratava de um comunicado da Conferência dos bispos Católicos de Cuba (COCC), difundido quase simultaneamente pelo Granma Internacional, órgão do Partido Comunista de Cuba (PCC) e pela Agência Católica de Informações (ACI), na qual se pedia encarecidamente “ orações” a “todas” as comunidades católicas da ilha para que Deus “acompanhe em sua enfermidade ao presidente Fidel Castro”, para que “ilumine a quem recebeu provisoriamente as responsabilidades de governo”, e para que “não possa ser perturbado por nenhuma situação externar ou interna” o “desejo de paz e de fraterna convivência entre todos os cubanos".

O Granma Internacional, sem esconder sua complacência, interpretou esta mensagem como sendo um chamado a "orar pela recuperação do presidente Fidel Castro" e como um "alerta" para que "a estabilidade e a harmonia social imperantes em Cuba" não possam ser alteradas por fatos internos ou externos.

A Conferência dos bispos Católicos de Cuba, que agora pressiona as consciências dos fiéis pedindo-lhes que rezem pela saúde do Lobo vermelho, e a mesma que jamais se atreveu a pedir publicamente orações pelo rebanho dizimado, pelos milhares de presos políticos agonizantes nos cárceres, pelos condenados a morte e pelos fuzilados nos paredões.

Segundo testemunhos fidedignos chegados de Cuba, se nota na população uma tensão sem precedentes, e existe nas ruas uma espécie de silêncio pesado e expectante. Há quem diga, parafraseando Andersen, que um grito de “o Lobo está desnudo!” poderia desencadear episódios similares aos da queda do Muro de Berlim ou aos do fim da ditadura do sanguinário Ceaucescu, na România.

É nesta conjuntura que os Pastores se encarregam de alertar para que “fatos internos” não venham a alterar uma “paz” artificial e fraudulenta, que em Cuba não é outra senão a “paz” sepulcral dos paredões. São uma vez mais os Pastores que, ao contrário de sair a defender o rebanho, se oferecem como escudos para proteger ao Lobo.

No dia seguinte do chamado dos bispos cubanos, se fez eco do mesmo nada menos que o Cardeal Primaz das Américas e Arcebispo de Santo Domingo, monsenhor Nicolás López Rodríguez, que junto com o pedido aos dominicanos que rezem "pela saúde" do tirano, qualificou de "inumana" a legítima esperança dos cubanos desterrados que se encontram nas ruas de Miami, de que o deteriorado estado físico de Castro possa trazer uma pronta liberação da ilha (cf. Listín Diario Digital y La Plana Digital, República Dominicana, 4 y 5 de agosto de 2006). O mesmo Cardeal que em agosto de 1998, antes de chegar Castro a República Dominicana, convocou ao povo desse país a dar-lhe uma “feliz e cálida boas-vindas" (cf. A. Valladares, "Castro en República Dominicana: el Pastor abre sus brazos al Lobo...", Diario Las Américas, Miami, 20 de agosto de 1998).

Depois de ter sobrevivido por mais de duas décadas como preso político nos cárceres catristas; de ter fortalecido minha fé católica ao ouvir os gritos de jovens mártires que morreram no paredão gritando “Viva Cristo Rey! ¡Abajo el comunismo!"; de haver resistido, junto com mais companheiros de infortúnio, a pressões eclesiásticas para consentir a uma "reeducação" ideológica e para vestir o uniforme de preso comum; assim como de haver podido quase milagrosamente sair com vida da ilha-cárcere, "esperando contra toda esperança", segundo o conselho do Apostolo São Paulo, me vi na dolorosa obrigação de consciência de escrever numerosos artigos denunciando a colaboração eclesiástica com o comunismo cubano.

Em sua maioria ditos artigos tem sido publicados em generosas páginas do Diario Las Américas, de Miami. Ofereço ditos textos aos leitores interessados, bastando escrever ao e-mail: ArmandoValladares2005 @ yahoo.es (cf., por exemplo, "Fraudulenta 'política religiosa' del dictador Castro", em vésperas da chegada do ditador Castro a Roma; "Sí, Cardenal Ortega, el régimen comunista persiguió y persigue a los católicos cubanos", nas vésperas da chegada de S.S. João Paulo II à Cuba; "El pedido de perdón que no hubo: la colaboración eclesiástica con el comunismo", "El Lobo y los Pastores celebran encuentro 'constructivo y amistoso'", "Cardenal Sodano y Fidel Castro: el Pastor sale en auxilio del Lobo”, "Cardenal Martino, Encuentro Nacional Eclesial Cubano y comunismo cubano", publicados, respectivamente, no Diario Las Américas de 16 de novembro de 1996; 9 de janeiro de 1998; 22 de março de 2000; 11 de maio de 2003; 29 de novembro de 2005 e 7 de março de 2006).

O recente comunicado episcopal que acabo de comentar, mostra a lamentável determinação dos bispos católicos de Cuba de continuar com essa colaboração comuno-católica, ainda no caso de um enfraquecimento temporário do tirano Fidel Castro se torne definitivo. Para as consciências dos Pastores, dito colaboracionismo com o regime comunista, que já dura décadas, constitui um lastro espiritual sem precedentes, que não poderá passar inadvertido ante Deus e ante a História.
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Texto publicado em espanhol no dia 9 de Agosto de 2006 no Diario Las Américas, Miami (FL).
*Armando Valladares, ex preso político cubano, autor do livro "Contra toda esperança", onde narra 22 anos nas prisões castristas, foi embaixador dos Estados Unidos ante a Comissão de Dereitos Humanos da ONU, em Genebra, durante as administrações Reagan e Bush. E-mail: armandovalladares2005 @ yahoo.es

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