Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Navegando nas águas do conservadorismo americano

Autor: Edson Oliveira   |   15:17   1 comentário

Resumo: a diferença primordial entre os movimentos conservadores na Europa e nos Estados Unidos é exatamente a nossa perspectiva moralista, enquanto na Europa se acentuam temas econômicos e políticos

NR: Segue abaixo um trecho do artigo "O grande connhecedor da alma americana" de John Hovart, atual vice-presidente da TFP norteamericana, publicado no livro "Plinio Corrêa de Oliveira, 10 anos depois".

Diferentemente de muitos outros países, há um verdadeiro oceano de pensamento conservador nos Estados Unidos, sendo fácil a pessoa se desorientar dentro dele, a menos que tenha os próprios rumos bem definidos. É possível alguém se imobilizar nas águas tranqüilas de um tradicionalismo um tanto estagnado. Igualmente perigosas são as marés violentas do mutável libertarismo (libertarianism).

Do seu longínquo posto de observação, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira conseguiu caracterizar aquela maioria religiosa que torna o nosso país tão conservador, dando-nos princípios orientadores que nos permitem navegar nessas águas.

Ele observou que muito freqüentemente nosso país é avaliado segundo os critérios de Hollywood ou da mídia. Estrangeiros que nos visitam manifestam muitas vezes surpresa quando encontram um país diferente daquele que as telas do cinema mostram. Nós mesmos tendemos a acreditar nessa imagem e não nos damos conta da amplitude do nosso conservadorismo. Falta-nos uma visão autêntica dos Estados Unidos, e uma parte importante dela foi o que o Prof Plinio denominou "consenso americano". Trata-se de uma "adesivo" ou "cola" espiritual que mantém o país unido, um acordo ou pacto geral pelo qual assumimos o compromisso de continuar americanos.

Um pouco de História

Esse consenso foi forjado no nascedouro da nação. Imediatamente após a guerra de independência, estourou uma crise religiosa. Nenhuma seita protestante detinha clara maioria, e a influência européia que pudesse guiar-nos já não existia. As igrejas protestantes americanas estavam desorganizadas, cada uma cuidando de si mesma. A própria guerra deixou as colônias num caos religioso. As estruturas religiosas e a moralidade do país encontravam-se desorganizadas por seis longos anos de guerra. A religião estava ameaçada também pela irreligião, por um espírito livre-pensador disseminado pelos franceses seguidores de Voltaire e Rousseau.

Essa atmosfera moral poderia facilmente degenerar numa rápida e total amoralidade e irreligiosidade. A nação tinha de adotar uma defesa religiosa contra a irreligiosidade, e o Prof. Plinio sustentava que ela adotou um tipo de consenso religioso. Não se tratava de uma unificação numa única igreja e num único Estado unitário, proibida por uma cláusula constitucional, mas de uma união dos Estados e um acordo não escrito de um consenso religioso. Era um consenso pelo qual os americanos mantinham um conjunto de normas de funcionamento em que certas coisas contra Deus eram proibidas. O Estado manteve uma certa reverência por um Deus vago em que acreditava. Um código moral consensual cristão, frouxamente baseado nos Dez Mandamentos, foi adotado pelo Estado e inserido nas nossas leis. Esse consenso tornou-se regulador da nossa moralidade e é o "adesivo" espiritual que nos mantém unidos.

Oficialmente laico, mas religioso

O Prof. Plinio acentuou que, embora o Estado americano não adote uma denominação religiosa, seria um grande exagero afirmar que ele é não-religioso. Na prática, senão na lei, a religião oficial dos Estados Unidos é esse consenso ecumênico geral. Como se trata de um consenso cristão, a nação é vagamente cristã.

Se a pessoa cultua algum tipo de Deus, de preferência cristão, participa desse consenso que mantém a religiosidade, o patriotismo e o devotamento à família, e que estimula um vago respeito pela Lei de Deus, como uma modalidade de política de segurança para manter a ordem pública.

Autores americanos e sociólogos comentaram muitas vezes o relacionamento especial do americano com a religião. Samuel Huntington, no livro Política americana, observa que os americanos conferem à sua nação e correspondente cultura "muitos atributos e funções de uma igreja". O sociólogo Robert Bellah acentua que os Estados Unidos estabeleceram uma "religião civil", que proporcionou "uma dimensão religiosa para todo o tecido da vida americana, inclusive a esfera política".

Ainda hoje, em meio a uma guerra cultural que tende a destruir as convicções religiosas e a moral, enormes setores do público americano subscreveram e prosseguem subscrevendo esse vago consenso.

As conseqüências práticas dessa atitude são muito importantes e muito visíveis no clima político atual. Quando a maioria de uma nação atinge o consenso de que todos devem cultuar algum deus, essa nação se torna muito religiosa. Ninguém discute, mas poucos conseguem explicar o fato de que os americanos são muito religiosos. São raros os ateus. A devoção religiosa separa os Estados Unidos dos seus mais próximos aliados, e constitui um obstáculo ao ataque desferido em todo o mundo à própria idéia de religião, pela Revolução universal.

O problema moral

Uma segunda conseqüência é o surgimento de uma ampla parcela da população que respeita o código moral frouxamente baseado nos Dez Mandamentos, ainda que apenas em razão da ordem pública. Por isso o país tende a ser moralista, transformando os assuntos civis em problemas morais e vendo-os em termos de branco-e-preto.

Os assuntos de moral contidos no Decálogo são exatamente os que polarizam hoje o país. Os americanos que manifestam inquestionável crença em Deus e na sua Lei estão muito mais dispostos a associar fé e política do que os similares de outros países. Conservadores americanos formam coalizões a propósito de assuntos como aborto, preces nas escolas, pornografia e homossexualismo. É o único país desenvolvido que promove enormes movimentos de protesto a respeito de temas morais, que não definham e surgem ano após ano na agenda legislativa.

O Prof. Plinio ressaltou que a diferença primordial entre os movimentos conservadores na Europa e nos Estados Unidos é exatamente a nossa perspectiva moralista, enquanto na Europa se acentuam temas econômicos e políticos. "A opinião pública americana tem uma adesão ao conceito de que os Mandamentos devem ser obedecidos, e atribui a desgraça aos que abertamente os transgridem", afirmou.

Isso não quer dizer que o país é isento de pecados. Pecado e imoralidade são aqui abundantes. No entanto, a simples existência dessa adesão à lei moral é um constante apelo a reconhecê-la e retornar a ela, assediando nossa consciência e erigindo nossos parâmetros de julgamento. Num mundo em que a moralidade desaparece rapidamente, todo aquele que se atém aos Dez Mandamentos constitui um obstáculo conservador. Por isso, embora a maioria dos americanos se recuse a acreditá-lo, os Estados Unidos são o grande país conservador.

1 comentários:

Poxa, cara, que blogaço!
Terei de voltar aqui depois e lê-lo com calma...

No meu também tem algumas coisas sobre conservadorismo.
Abraço!