Frase

"A Revolução Francesa começou com a declaração dos direitos do homem, e só terminará com a declaração dos direitos de Deus." (de Bonald).
São Paulo, sexta-feira, 24 de novembro de 2006

O "não dito" da esquerda e a revolução cultural

Autor: Edson Oliveira   |   00:35   2 comentários

Resumo: uma novela onde, por exemplo, mostra que é bonito ter um linguajar vulgar no trato com pessoas mais velhas, onde as modas masculinas e femininas se confundem ... tudo isso influência revolucionariamente mais a opinião pública no rumo ao comunismo do que espalhar o manifesto comunista de Marx

Segundo Josef Pieper, filósofo alemão neo-tomista, ao se interpretar um texto deve-se procurar o "não-dito no dito"[1] - expressão de Heidegger -, descobrir a clave oculta, aquilo que não foi expressamente escrito, mas que está subjacente ao que foi dito.

Isso que se faz com um texto, pode-se analogamente fazer o mesmo ao analisar uma corrente política, como é o caso da esquerda.

Em uma conversar com qualquer esquerdista, é difícil não ouvir diversas críticas a tudo quanto nos rodeia, um emaranhado de argumentos sem fim que aparentam não ter nenhuma ligação entre si. Mas há, na crítica esquerdista, um princípio "não dito" que orienta todas as suas idéias, suas ações, seus modos de ser e de viver.

Procurar o "não dito" do esquerdismo pode parecer a primeira vista impossível, visto os diversos matizes de teor revolucionário dessa corrente, uns mais radicais, outros menos. Mas em todos esses diversos matizes cartilagionosos há um esqueleto rígido, por assim dizer, que sustenta e mantêm todos eles unidos, caminhando na mesma direção. Um esqueleto que liga os argumentos da crítica do esquerdista e que, a seu ver, os fundamenta.

Esse "não dito" pode ser expresso em um princípio metafísico. Segundo Plínio Corrêa de Oliveira, para o esquerdista "a ordem do ser postula a igualdade, e tudo quanto é desigual é ontologicamente mau".

Esse princípio liga Lenin ao socialista menos radical. Todos buscam uma igualdade quimérica, seja no campo religioso, seja no político-social-econômico, seja no trato entre as pessoas, seja nos trajes ou na linguagem. Pretendem modelar todos os campos da ação humana segundo sua falsa visão metafísica igualitária. Segundo eles, tudo quanto é desigual é injusto e tende, por isso, a torna-se alvo de sua crítica.

O modo pelo qual um esquerdista pode influenciar uma opinião pública não esquerdista a seguir seu caminho, nem sempre é em convencê-la doutrinariamente de sua "cosmo-visão" igualitária do universo. Mas uma novela onde, por exemplo, mostra que é bonito ter um linguajar vulgar no trato com pessoas mais velhas, onde as modas masculinas e femininas se confundem ... tudo isso influência revolucionariamente mais a opinião pública no rumo ao comunismo do que espalhar o manifesto comunista de Marx.

Uma pessoa que não professe o igualitarismo, mas que tenha um modo de ser igualitário, mais cedo ou mais tarde, por força das circunstâncias, terá que justificar sua posição, tornar coerente seu modo de pensar e de viver. Nesse momento, os argumentos do esquerdista encontrarão um terreno fértil.

Pode-se dizer assim que a artilharia da Revolução Cultural prepara o campo para o ataque da dialética esquerdista.

Ignacio Sotelo, provavelmente o maior ideólogo do Partido Socialista Obrero Espanhol (PSOE) na década de 80, em um estudo publicado no "Leviatã", em 1978, afirmou que a classe trabalhadora não tem nem o ímpeto revolucionário, nem as condições para estabelecer a clássica ditadura do proletariado.

"Não cabe - diz Sotelo - uma transformação repentina nem violenta da ordem capitalista (...) e isso porque não basta a eliminação da propriedade privada (...) para realizar o socialismo." De onde conclui que a socialização da economia constitui um processo "muito mais complexo e largo do que o imaginaram os clássicos do século XIX".

Os socialistas, segundo Sotelo, devem sair ao encontro, interpretar e estimular as tendências culturais que na sociedade atual contestam a antiga moral tradicional e sua projeção social. A marcha até o socialismo não pode basear-se só na luta dos trabalhadores, senão também nas possibilidades que oferecem a evolução das atuais formas de pensar e de viver.

Sotelo ainda chega a afirmar que "a dimensão política não é a prioritária na marcha até o socialismo". Para que esta possa converte-se em realidade é necessária "também uma verdadeira revolução cultural".

O Professor Plínio Corrêa de Oliveira descreveu em suas obras o papel das paixões desordenadas do homem como força propulsora da Revolução. Sem a manipulação dessas paixões as doutrinas revolucionárias careceriam de força e as transformações institucionais consequentes seriam destinadas ao fracasso pelas reações populares que provocariam. Uma síntese a respeito se encontra em sua obra Revolução e Contra-Revolução (Parte I, Cap. V - As três profundidades da Revolução: nas tendências, nas idéias e nos fatos).

Uma tática para os conservadores e direitistas está no fato de saberem enfrentar o inimigo no campo de batalha exato e com as armas adequadas.

Se o ataque vem do lado cultural, então, temos que saber colocar reações e obstáculos a essa investida nesse campo. Sem isso nosso discurso não encontrará ouvidos, seu conteúdo será incompreensível para as pessoas trabalhadas pela revolução cultural; pessoas - convém dizer - tendentes a dar razão aos argumentos da esquerda para justificar seu novo modo de vida.

Sem esquecer da importância de se refutar os princípios da esquerda, há uma necessidade urgente de se fazer uma contra-revolução cultural.

[1] Josef Pieper. Luz Inabarcável - o Elemento Negativo na
Filosofia de Tomás de Aquino. Disponível em: http://www.hottopos.com/convenit/jp1.htm . Acessado em: 01/11/2006.

2 comentários:

Jogo linguistico. Tente substituir os termos (esquerda, igualdade, desigualdade, igual, desigual, conservador, progressista, comunista, fascista..., por ex.) por outros de conotação oposta. Tudo igual, ao final.

A única coisa de inteligente que há no comentário acima é o fato do seu autor ter ficado anônimo.

Parabéns pelo artigo Edson!